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Postagens

Marina Magalhães | três poemas

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Francielle Villaça | três poemas

Alongamento
A dor nos encurrala para o presente


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Exercitar o conformismo
mesmo que por um instante,
ou melhor:
ainda que por um instante
sobretudo
por mais
um
instante.
Não, não atenuaremos o confronto:
o conformismo nos atenta ao instante
pouco a pouco
até que os ossos estalem.

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O freio de emergência habita alguma extremidade

Tudo que é radical é, imanentemente, radical demais. Porque não há raiz sem mergulho. Porque ir até a raiz exige destreza, perícia, coragem. Raiz: palavra aguda. Palavra que destrona qualquer ilusão de fincar vida na superfície. Enraizar é um trabalho árduo. Mas, que em sua essência aguda, não vê outra possibilidade se não fincar. Fincar. Fincar em solo firme, fértil, mas nunca estável. Encurralados, a saída está na profundidade do nosso mergulho.

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Francielle Villaça tem 20 anos, nasceu e mora em Vila Velha, no Espírito Santo. Atualmente cursa Letras - Português, na Universidade Federal do Espírito Santo. Militante ecossocialista, acredi…

Cecília Lobo | seis poemas

Troca de passes

Há algo de futebolístico
Vende-se compra-se
Um passe aqui outro ali
Era juiz virou ministro
Era parceiro agora crítico
Troca-troca de legendas
Muitos símbolos
Mesmos significados
Remanejando numa luta
Digna da bolsa de valores
Os salários
Cargos
E peixadas
Desses homens
Furiosos
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Memória


Mudar todos os nomes
De ruas, avenidas, viadutos
Condenar os algozes
Ainda que velhos ou mortos
Queimar seus retratos
Em praça pública
Desenterrar corpos e arquivos
Chamar as coisas pelos nomes certos
Golpe de estado
Tortura
Assassinato
Censura
Ditadura
Lembrar
O tempo todo
*************
Ventre livre


Quanto a nós
As mulheres
Há que se tentar
Viver solta
Para evitar
Morrer
De prisões
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Em
Tremores
Pupilas
Pausas
Ênfases
Pés
Gestos
Bocas
Tudo que somos
Nos trai
Discretamente
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Crua


E esse desejo sempre sobra
Transcendendo metáforas
Se fosse fome
Seria desespero
Seria com a daquele filme que você me fez ver
Luxúria e asco e excesso
E se fosse água
Torrente dilúvio naufrágio sinal dos tempos
[fins de mundos
Ma…

Marcos Samuel Costa | seis poemas

Chamas 

Não chamas o deus,
ser não físico, sem matéria,
sem húmus, amo,
não queimará nenhuma lembrança,
a força que fará
não tem água,
não apaga,
ele próprio não queima.

O pesadelo em teu quarto,
gás vazado,
fósforo acesso, estalos,
os dedos se estalaram,
o crime de tenebrosa vertigem,
morra,
a casa fica fora da área de perigo,
habitantes ausentes na festa,
habitantes fugitivos
da guerra sem deus,
atravessam o mar
num navio em chamas.

Não habitará nenhuma
casa humana,
na criação da terra
o deus fez terra e mar,
oceano é palavra moderna,
queimou as paredes,
vejam – a intimidade
do homem exposta.

O homem ficou sem paredes,
o quarto sem segredos,
queimou, junto das páginas
dum livro antigo de Machado,
junto a cartas,
cigarros febris, famintas chamas,
chamas
chamas o deus,
ele não é como tu de carne,
não queima,
não morre
e vira mármore frio,
terra e pó,
cinzas da tarde quente,
o paraíso ficou na parte
obscura dos olhos,
ficou na parte seca dos braços.

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É no meio da noite

Durante a terrível te…

Ma Njanu | três poemas

dois graus menos que ontem é hoje

imagino a sequela da chuva passada
uma cova adentrando a vala
rasa e mais outra e outra
o barro dissolvido à espreita:
qualquer sonata vela teu corpo

a vala o velho a vespa o vírus
abraça a terra,
seu sol gira em torno de nós
gato não pega
rato também não
nem mosca
nem madeira
papéis
escritório
as grandes corporações
o banco

só nós - [antropo]centro do mundo
agora

no entanto, é certa a miséria: aporta no Meireles e vai morrer na Barra.

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a queda do céu ao inferno
[dedicado ao humanismo, e os avanços nem tão queridos da modernidade]
quebrou a máquina,
desnecessário é viajar no tempo
se em cada mão cabe cinco ossos
para cada pessoa
não enterrada.

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o desaparecimento dos bichos é a modernidade

a galinha vai pro abate
eu consciente
de sua morte,
acaricio sua crista

e digo: vai ficar tudo bem

muitos cheiros entre dialetos
macia é a pelagem

sou carinhosa,

sempre canto seu corpo e não
me delicio nas suas coxas
depois de prosseguir a passagem,

toda ida precede a presença
dos bicho…

Ana Priscila | quatro poemas

Vigília

A realidade é o pesadelo
do qual não podemos acordar

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Esforço

O impossível me corrói por dentro,
tripudiando a contento
de cada esforço por expressá-lo.

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Mote
A morte no monte.
Uma p
    o
    n
    t
    e

Corta!
Cena.

O norte é a morte
A morte é o mote.

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Engaiolada
Eu não sei por quê
o pássaro ainda canta
na gaiola.

Queria ser mais
como um pássaro
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Ana Priscila é advogada, cristã, feminista, psicanalista em formação, professora de italiano, cinéfila, cozinheira autodidata, tenista amadora, enxadrista de araque, flamenguista inveterada, ruiva e nordestina, barroca e andina. Apaixonada por literatura desde a mais tenra idade, tem influências que vão de Kaváfis a Castro Alves. Seu interesse predominante está em investigar as experiências e sensações advindas do divã, traduzindo-as em tessitura poética.

Lucas Grosso | sete poemas

Fresta
Em uma fresta na janela do banheiro
entram durante o banho
ar e memórias
entra um cheiro de peido
e a palavra que o gás designa
a oração de são Francisco
dúvidas e fé
Manuel Bandeira
um útero
um punho
um útero do tamanho de um punho
Angélica Freitas comendo alcachofras
e também
Lou Albergaria
entra uma tia fumando cigarros num ano novo em Itanhaém
entram gotas de homeopatia
xarope de hera
o girassol do Alceu Valença
e a morena tropicana

entram pelos ouvidos
pedem um orçamento
na oficina do diabo
e morrem
descendo pelo ralo
com a espuma do xampu,

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As pedras

O mundo está gritando
mas você não escuta porque
está muito ocupado quebrando
as pedras da calçada
vazia

O mundo está gritando
mas você não escuta porque
está muito ocupado limpando
as pedras do terreno
baldio

O mundo está gritando
mas você não escuta porque
está muito ocupado carregando
as pedras da obra
abandonada

O mundo está gritando
mas você não escuta porque
está muito ocupado procurando
as pedras de um rim
operado

O mundo está gritando
mas você não escu…