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Mostrando postagens de Junho, 2020

Francielle Villaça | três poemas

Alongamento A dor nos encurrala para o presente ************ Exercitar o conformismo mesmo que por um instante, ou melhor: ainda que por um instante sobretudo por mais um instante. Não, não atenuaremos o confronto: o conformismo nos atenta ao instante pouco a pouco até que os ossos estalem. ************ O freio de emergência habita alguma extremidade Tudo que é radical é, imanentemente, radical demais. Porque não há raiz sem mergulho. Porque ir até a raiz exige destreza, perícia, coragem. Raiz: palavra aguda. Palavra que destrona qualquer ilusão de fincar vida na superfície. Enraizar é um trabalho árduo. Mas, que em sua essência aguda, não vê outra possibilidade se não fincar. Fincar. Fincar em solo firme, fértil, mas nunca estável. Encurralados, a saída está na profundidade do nosso mergulho. ************* Francielle Villaça tem 20 anos, nasceu e mora em Vila Velha, no Espírito Santo. Atualmente cursa Letras - Português, na Universidade Federal do Espírito

Cecília Lobo | seis poemas

Troca de passes Há algo de futebolístico Vende-se compra-se Um passe aqui outro ali Era juiz virou ministro Era parceiro agora crítico Troca-troca de legendas Muitos símbolos Mesmos significados Remanejando numa luta Digna da bolsa de valores Os salários Cargos E peixadas Desses homens Furiosos ************ Memória Mudar todos os nomes De ruas, avenidas, viadutos Condenar os algozes Ainda que velhos ou mortos Queimar seus retratos Em praça pública Desenterrar corpos e arquivos Chamar as coisas pelos nomes certos Golpe de estado Tortura Assassinato Censura Ditadura Lembrar O tempo todo ************* Ventre livre Quanto a nós As mulheres Há que se tentar Viver solta Para evitar Morrer De prisões *********** Em Tremores Pupilas Pausas Ênfases Pés Gestos Bocas Tudo que somos Nos trai Discretamente ************* Crua E esse desejo sempre sobra Transcendendo metáforas Se fosse fome Seria desespero Seria com a daquele filme que você me fez ver Luxúria e asco e excesso E

Marcos Samuel Costa | seis poemas

Chamas  Não chamas o deus, ser não físico, sem matéria, sem húmus, amo, não queimará nenhuma lembrança, a força que fará não tem água, não apaga, ele próprio não queima. O pesadelo em teu quarto, gás vazado, fósforo acesso, estalos, os dedos se estalaram, o crime de tenebrosa vertigem, morra, a casa fica fora da área de perigo, habitantes ausentes na festa, habitantes fugitivos da guerra sem deus, atravessam o mar num navio em chamas. Não habitará nenhuma casa humana, na criação da terra o deus fez terra e mar, oceano é palavra moderna, queimou as paredes, vejam – a intimidade do homem exposta. O homem ficou sem paredes, o quarto sem segredos, queimou, junto das páginas dum livro antigo de Machado, junto a cartas, cigarros febris, famintas chamas, chamas chamas o deus, ele não é como tu de carne, não queima, não morre e vira mármore frio, terra e pó, cinzas da tarde quente, o paraíso ficou na parte obscura dos olhos, ficou na parte seca dos braços. ************ É no meio da n

Ma Njanu | três poemas

dois graus menos que ontem é hoje imagino a sequela da chuva passada uma cova adentrando a vala rasa e mais outra e outra o barro dissolvido à espreita: qualquer sonata vela teu corpo a vala o velho a vespa o vírus abraça a terra, seu sol gira em torno de nós gato não pega rato também não nem mosca nem madeira papéis escritório as grandes corporações o banco só nós - [antropo]centro do mundo agora no entanto, é certa a miséria: aporta no Meireles e vai morrer na Barra. *********** a queda do céu ao inferno [dedicado ao humanismo, e os avanços nem tão queridos da modernidade] quebrou a máquina, desnecessário é viajar no tempo se em cada mão cabe cinco ossos para cada pessoa não enterrada. ********** o desaparecimento dos bichos é a modernidade a galinha vai pro abate eu consciente de sua morte, acaricio sua crista e digo: vai ficar tudo bem muitos cheiros entre dialetos macia é a pelagem sou carinhosa, sempre canto seu corpo e não me delicio nas suas coxas depois de prosseguir

Ana Priscila | quatro poemas

Vigília A realidade é o pesadelo do qual não podemos acordar *********** Esforço O impossível me corrói por dentro, tripudiando a contento de cada esforço por expressá-lo. *********** Mote A morte no monte. Uma p     o     n     t     e Corta! Cena. O norte é a morte A morte é o mote. *********** Engaiolada Eu não sei por quê o pássaro ainda canta na gaiola. Queria ser mais como um pássaro *********** Ana Priscila é advogada, cristã, feminista, psicanalista em formação, professora de italiano, cinéfila, cozinheira autodidata, tenista amadora, enxadrista de araque, flamenguista inveterada, ruiva e nordestina, barroca e andina. Apaixonada por literatura desde a mais tenra idade, tem influências que vão de Kaváfis a Castro Alves. Seu interesse predominante está em investigar as experiências e sensações advindas do divã, traduzindo-as em tessitura poética. 

Lucas Grosso | sete poemas

Fresta Em uma fresta na janela do banheiro entram durante o banho ar e memórias entra um cheiro de peido e a palavra que o gás designa a oração de são Francisco dúvidas e fé Manuel Bandeira um útero um punho um útero do tamanho de um punho Angélica Freitas comendo alcachofras e também Lou Albergaria entra uma tia fumando cigarros num ano novo em Itanhaém entram gotas de homeopatia xarope de hera o girassol do Alceu Valença e a morena tropicana entram pelos ouvidos pedem um orçamento na oficina do diabo e morrem descendo pelo ralo com a espuma do xampu, *********** As pedras O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado quebrando as pedras da calçada vazia O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado limpando as pedras do terreno baldio O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado carregando as pedras da obra abandonada O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado procurando as pedras de u

Felipe Fleury | cinco poemas

Apneia Entre um poema e outro, o que me aflige é a lucidez da cena muda: o mato crescendo nos seus espaços, onde tudo é silêncio e desperdício. Prendo o fôlego dentro do poema sem desistir de respirar, no entanto - até o fim da apneia, meus pulmões serão líquidos -. Expelirei somente o que não for algum delírio. ************* Distopia Não há utopias à vista, nem nos sonhos dos próximos recém-nascidos. Dias correm como as frentes frias e ainda não se inventou uma vacina contra o vírus que transforma pés em cascos. Logo, florestas caberão em terraços e os livros servirão como calços, utensílios erguidos às virtudes da ignorância. A expansão da fronteira agrícola não respeitará os semáforos e as ruas darão lugar a abundantes pastos. A Terra, enfim, depois de tantas tentativas, assumirá a forma cúbica e a escatologia terá o status de ciências humanas. Os analgésicos não aliviarão sequer as dores. Personagens anacrônicas da nova ordem, as flores germinarão da exceção dos jardins. E o

Jennifer Trajano | cinco poemas

lua não amanhece sereno envelhece a terra de mim estandarte há aqui e não deveria é de branco que fazia genocídio de xamã bíblicos versículos gerando ira em tupã girando mira na fé de si tira tirania que atira sangue vermelha o verde da bandeira (esse símbolo que nem é daqui) ********* sussurro a mata me clama quando te clamo vento queima no vaga-lume que sou quando suo em ti a mata me chama quando te chamo ilya descobre nela e faísca em mim ********** jazida folhas secas minam as presas dos felinos nas caças florestais terra, fome, ais mira que não some das favelas sociais ********** fuga gorila batendo em peito de diamante troca a pele corta o instante repele o pó de vidro distante porque o caco de dentro perdeu-se nos dedos ********** cicatriz uma escrava chora no tronco: chibatada utópica do regresso grosso, morto, oco, tão eco como o grito em alvoroço do tigre que não cessa no fundo do poço ********** Engenheira de ilusões, natural de João Pessoa - PB, professor