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Mostrando postagens de Maio, 2020

5 poemas de André Merez

canto do oleiro
No barro,
navega o gesto,
o ventre liso da
terra, sua forma
imprevista estuda
o ângulo do braço,
gira em contorno e
a molda definitiva.

No torno,
nem um meneio,
um respiro preso,
o respeito ao ato,
o resto do respiro
e uma vida
na lida com o método,
na luta leve, o equilíbrio.
Não há pressa no ofício,
há engenho, um segredo.

No forno,
incandesce sua carne
e luz e fogo se unem,
corpo vivo em brasa.
Reluz a alma do barro,
vive sua origem maior
em brasa e se enrijece.

Na calma,
depois do fogo extinto,
depois do calor calado,
não deixa de ser barro,
no entanto é outra arte,
une o homem e a terra,
o profano e o sagrado.

**********
na última sessão do dia

Dorme,
dorme tudo o que se retira,
a fatia do dia, a faca, a fala
e o que é da vertigem real.

Dorme,
dorme o que queria, alçava,
a morte esquecida na tarde,
a triste tarde de sonolências.

Dorme,
Morfeu versado em Tânato,
esquece o dia, abraça a noite,
a sua mãe desesperada e fria
também dorme e, ao dormir,
alcança a eternidade desejada.

Como jamais se dormiu,
dorme t…

3 poemas de Diego Franco Gonçales

cunhambebe

ponta de árvore, galho seco
a vinte metros desse chão de índios extintos
um carcará se arrepia e começa a chover

**********
de férias

vibram menina, menino e poodle
(viram de longe, “cachorro grande!”)
e correm: a alegria do medo

**********
duc in altum

uma ilha ao fim da rua
impele um mundo todo novo
que não é rua, não é ilha, não é fim

**********


Diego Franco Gonçales, nascido e criado no ABC paulista, mora em Caraguatatuba/SP. Pesquisa e ensina Comunicação em universidades; traduz, prepara originais e revisa para o mercado editorial; e é instrutor de krav-maga, arte marcial israelense para defesa pessoal. Publicou o volume bilíngue “Dois contos de Kate Chopin” (Edição do autor, 2019) e teve contos selecionados para revistas literárias (Ruído Manifesto, RelevO, Kurumat'á).

4 poemas de Franck Santos

Cena 13:

Desperto às cinco da manhã para perceber que na minha rua já ninguém dorme de janelas abertas
Quantas pessoas desertaram?
Nesses amanheceres de dias vazios o tempo não tem asas
Tenho membros pesados como os dos sonâmbulos ou dos afogados
Sinto-me um inseto enorme sem cérebro.
Ensinem-me de novo a respirar, caminhar por ruas movimentadas, olhar janelas abertas, sem tédio ou morte ou desertores.
Nessas manhãs que a solidão come sucrilhos e maças argentinas, contemplo nas janelas fechadas, nas flores, nos ossos que aparecem sob a pele como após uma longa doença
Camadas de orvalhos
E canto baixinho uma canção de amor.

************
Para não morrer tanto

Este tempo é de coisas que nos deformam
Como seres das espécies pelágicas
Vivemos acima dos sedimentos
Mas ainda há pele tua sobre os lençóis, nos discos acumulados, nas fotografias, nos meus dentes.
Seremos sempre deslocados na geografia
Como a cicatriz que deixaste, como uma tatuagem, uma explosão, uma catástrofe,
O lobo que fugiu da sua alcateia

2 poemas de Lívia Corbellari

mesmo com fraturas
manter se de pé

mesmo dentro d´água
respirar

e fora dela
prender o ar

prédios desabam dentro de mim 
**********
murchando
presa
longe

drenada

ainda respira e
volta a cuidar dos fetos e das begônias
**********
Lívia Corbellari nasceu em 1989, em Salvador (BA), mas mora em Vitória (ES) desde 1996. É jornalista, mantém o projeto literário “Livros por Lívia” e também faz parte do núcleo editorial da Revista Trino, sobre literatura brasileira contemporânea. “Carne viva” é seu primeiro livro de poemas.

4 poemas de Mariana Godoy

meu peixe não durou uma semana
fingi estar mais triste do que realmente estava
maninho e eu nos preparamos para o velório
vestindo roupas pretas

ele segurava um guarda-chuva
como nos filmes americanos
enquanto eu carregava o peixe enrolado
num pedaço de papel higiênico

caminhamos em silêncio até o jardim
abrimos um buraco debaixo do limoeiro
rezamos pai nosso, ave maria
e cantamos a música do menino jesus

depois enfeitamos o túmulo com pedras
e gravetos

perguntei como poderia o peixe ter morrido afogado
e maninho respondeu
com toda sua sabedoria
“colocamos muita água”

aquela foi minha primeira vez no teatro.

**********
gosto de acompanhar corridas:
corridas de pernas,
corridas de rodas.

muito por conta do meu pai,
que falava sem qualquer sinal de vergonha:

“o dia mais triste da minha vida,
foi o dia que o senna morreu.”

nosso passatempo era ficar assistindo
as filmagens antigas da fórmula 1.

papai comemorava como se não soubesse da vitória:
“ayrton! ayrton senna do brasil!”

nunca o chamou de herói.

aliás, sempre tiv…

3 poemas de Lorena Grisi



Todo pó respirado contém oitenta genealogias.
Debaixo do osso, nervos adormecem.


********** Sexta

Eu vi o mundo acabar um pouquinho,
mas tive de ir comprar frutas no supermercado,
era sexta,

eu vi.
Acabava sem fogo ou água,
penso nos tantos tolos
torcendo, agora tristes,
pobres, desde sempre.

Há fila
e as moças do caixa, todas elas,
agora são uniformizadas com laços e coques
nos cabelos.

Penso no que será de meus cabelos
e de meus ossos.

Foi pelo chão,
que se abriu, mas era sexta,
e a cada dia há mais gente
que trabalha três turnos.

Três são os restos do mundo,
guardemos em relicários:
dois dedos de terra,
rasgos de tecidos,
a memória dos dentes.

********** Quadrinha da imunidade presidencial

Eu não morro de facada,
gripezinha não me pega.
Não tem nada a ver com classe,
é histórico de atleta.

**********
Lorena Grisi é escritora e vive em Salvador (BA). Tem formação em Letras pela Universidade Federal da Bahia e é revisora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano. Em 2019, foi selecionada para pa…

2 poemas de Letícia Becker Savastano

cá entre nós

lourdes,
deve ser esse o nome
de sua espera com três pernas
que te levariam a sorocaba.

rita,
encontrei um lugar
onde não chove
dentro da paranoia não
há retorno para a entrada
de pessoas na cabine.
a onda foi, mas não voltou de tudo
e a casa de pedras rosas foi
vendida

cecília,
vão tentar te proibir de colar
cartazes.
resista à conversão

vitória,
arrume as fissuras com as próprias mãos,
e crie outras com os próprios olhos
assim, você sempre será
sua.

antônia,
espere o trem passar e lá
verás arte e requinte’moldurada
às preferências

angela,
o cheiro de álcool vem da cavalaria ou do palhaço.
dele ninguém quer foto, molotov, queima filme.
pouca diversão

********** mecanismos

tem lugar que entro com aqui_
lo mas não com isso e tem lug’
ar que nem entro ainda tem’ o
lugar qu’invento pra sair pois
melhor é o qu’invento entrar

**********
Letícia Becker Savastano é arquiteta urbanista (FAU-Mackenzie) e mestranda (FAU-USP ) pensando diálogos entre arte, memória, territórios e imaginários …

6 poemas de Calí Boreaz

efeito kahlo kuleshov

estou imóvel
suspeito que me tornei um quadro
com debrum de areia pequenas conchas
e pontas de cigarro
à minha beira está o mar em março
ele desatentamente cospe nos meus pés. e através
de mim desamarro o vendaval morse
/ não escutes. ainda estou imóvel
sobre mim-onde há uma constelação
de abutres como uma indecisão boiando
aos fundos de mim-quando há a ficção
citadina inacessível
entre o tempo da água e o destempero do asfalto
a destempo tento — ainda — criar poesia
/ ay llorona / olhos negros /
e crio silêncios. basaltos. silêncios
a fazerem sala às tuas perguntas
no horário nobre do despresente
faço um esforço — me recorto
dou um passo na via láctea
meus pés imprimindo a marca de água
e enquanto me arranco à imobilidade
/ as tuas perguntas /
a cidade se petrifica
basaltos. silêncios. solidões acústicas
presas na véspera — ou num dia advindo
a gastarem-se companhia
no horário nobre da vida

que é a fina presença da morte
agarro com força a escuridão
e dou mais um passo
o garoto de short azul n…

5 poemas de Maíra Vasconcelos

Outono-inverno, 2019. Há diversos modos de se utilizar o frio,
por exemplo, cadáveres de humanos
e animais sepultados no gelo
podem assim permanecer indefinidamente.
Há diversos modos de se utilizar o frio
quando fabricado industrialmente
as câmaras frigoríficas
não matam todos os micróbios,
mas diminuem sua vitalidade.
Há diversos modos de se utilizar o frio
e para não perder frutas, vinhos
e animais, que não devem
estar expostos ao frio extremo,
são usados silos, armazéns e sótãos.
Há diversos modos de se utilizar o frio
e saber como e quando usar as temperaturas
é científico e nunca popular
como são os termômetros
para medir a temperatura corporal,
ainda que diante de outro
o corpo responderá
sempre a uma determinada temperatura
tão diferente daquela acumulada
com o passar dos anos de uma vida
desejando mais abrigo e calor
como quem busca silos, armazéns e sótãos.


**********

O poema não se cansa do sol torcido
nas palhas de um cesto pegando fogo
veja
as faíscas podem ser o poema
se dissolvem…

4 poemas de Divanize Carbonieri

Asfixia
asfixia das salas de estar
nossa onipresença ainda sã
passeia pelas peças tomadas
por tantos alvéolos flutuantes
num ar paralisado e viscoso

as vias que levam à varanda
também estão atravancadas
as mãos em torno da garganta
só não estrangulam a vontade
de apenas voltar a respirar

o pulmão fibroso aguarda
sobre a travessa de faiança
que o desfaçam em filetes
para alimentar os pássaros
pousados no nevoento quintal

muitas criaturas ainda vivem
embora a morte vã já tenha
contaminado nossas camas
conectadas que estamos aos
poucos respiradores de sonhos

o último sopro será dado
entre as parcas paredes
da casa prestes a sucumbir
enquanto os cães ocupam
o asfalto que cede sem nós

*********** Verniz

o ovo não escorregou da mão
nem foi o leite que se derramou
o pão não se perdeu para o bolor
nem a carne se encheu de vermes

se a comida permanece intacta
por que há a sensação de falta
uma escassez que não é de víveres
ameaça o verniz de normalidade

ninguém mais pode ser abraçado
nada agora ultrapassa a película
as pessoas são…

6 poemas de Ricardo Escudeiro

scorpion
faz então uma lista de antagonistas dos mortos vivos
conta pra gente dos prós e dos contras
das maneiras pelas quais o que somos enquanto fim
é processado

tem aquele que sabe do preparo de rostos pra cortejos
quem inventou que isso fosse um emprego e não
uma situação desconfortável
ele dizia pra gente de uma história
de uma coxia de incinerar
e da véspera das faces em sua intensa espera
tudo isso acaba deixando a gente pra baixo
será que convém
trocar a pele dos nossos mortos
antes de assoprá-los
é bem provável

********** lynch

no céu
tudo está bem
desde que a entidade no planeta
que às vezes pode ser o prédio ao lado ou
o flare de uma tradicional empresa de derivados petroquímicos
ou mesmo a cabeça de um neném
transformada num planeta que se parte ao meio
desde que essa entidade
em alguns sites em certos sítios já chamada de
o homem no planeta o homem doente na cabana ou veja só
ah não se sabe bem do que se trata
desde que essa entidade se mantenha a si
numa deformidade que é tanto mas tanto dela quant…

4 poemas de Anna Apolinário

As bruxas sussurram meu nome

Com furiosa doçura,
permaneço olhando para o fogo.
Eis a chave,
escondida sob a língua.
O sangue ressurgirá,
concupiscente, em cada sílaba.
********** Os amantes invisíveis

Esta noite, nossa volúpia violará todas as portas
da cidade sufocada em silêncio e solidão.
As chaves ardem e vibram em nossas mãos,
invisíveis e subversivos,
somos fragmentos de sonho e feitiço
que se atrevem a vencer o veneno dos dias.

Nosso louco abraço é o pacto,
tua boca murmura secreta carícia:
poesia, amor, liberdade,
três punhais riscando meu peito,
sangue aflorado ao cerne do desejo.
Então deslizas com teu beijo
aos meus misteriosos bosques
em lento, doce desespero,
para saciar uma sede antiga e abrigar tua língua
ao sabor de um manancial em chamas.

A cidade sitiada estremece
e nossos corpos entorpecidos não recuam.
Metamorfose de elementos desconhecidos,
indícios de uma secreta alquimia.
Tua pele me cerca, suplicante,
a febre aumenta e nos enlaça em tempestuoso delírio.

Há entre nós, fúria suficiente
para ap…