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Mostrando postagens de 2020

Marina Magalhães | três poemas

Prelúdios do afogamento. Para violino. Por fim, quando deixarás de alimentar os teus naufrágios? Me perguntaste sem saber que tripulação alguma deseja a própria morte. Nada podem fazer se a carcaça, já tão cheia de buracos, continua       sempre            a afundar.                   A marcha                   fúnebre faz                   glub.                   glub.                   g                   l                   u                   b. *********** Amor de prateleira Os dias vêm sobrando, transbordadas as horas pelo vidro. Tempo deixado em conserva é salgado demais para gente [hiper]tensa. E amassados pelas quatro paredes, a pressão só aumenta. O medo não é que pare o coração. É que ele escorra para fora do copo de conserva, licoroso sobre a estante. O resto engarrafado em plástico sem rótulo. Fosse ele a sobra desvalida. Esquecido, até passada a data de vencimento. *********** Não posso me exilar de mim Melhor seria dar adeus à nossa pátria, é a história que

Francielle Villaça | três poemas

Alongamento A dor nos encurrala para o presente ************ Exercitar o conformismo mesmo que por um instante, ou melhor: ainda que por um instante sobretudo por mais um instante. Não, não atenuaremos o confronto: o conformismo nos atenta ao instante pouco a pouco até que os ossos estalem. ************ O freio de emergência habita alguma extremidade Tudo que é radical é, imanentemente, radical demais. Porque não há raiz sem mergulho. Porque ir até a raiz exige destreza, perícia, coragem. Raiz: palavra aguda. Palavra que destrona qualquer ilusão de fincar vida na superfície. Enraizar é um trabalho árduo. Mas, que em sua essência aguda, não vê outra possibilidade se não fincar. Fincar. Fincar em solo firme, fértil, mas nunca estável. Encurralados, a saída está na profundidade do nosso mergulho. ************* Francielle Villaça tem 20 anos, nasceu e mora em Vila Velha, no Espírito Santo. Atualmente cursa Letras - Português, na Universidade Federal do Espírito

Cecília Lobo | seis poemas

Troca de passes Há algo de futebolístico Vende-se compra-se Um passe aqui outro ali Era juiz virou ministro Era parceiro agora crítico Troca-troca de legendas Muitos símbolos Mesmos significados Remanejando numa luta Digna da bolsa de valores Os salários Cargos E peixadas Desses homens Furiosos ************ Memória Mudar todos os nomes De ruas, avenidas, viadutos Condenar os algozes Ainda que velhos ou mortos Queimar seus retratos Em praça pública Desenterrar corpos e arquivos Chamar as coisas pelos nomes certos Golpe de estado Tortura Assassinato Censura Ditadura Lembrar O tempo todo ************* Ventre livre Quanto a nós As mulheres Há que se tentar Viver solta Para evitar Morrer De prisões *********** Em Tremores Pupilas Pausas Ênfases Pés Gestos Bocas Tudo que somos Nos trai Discretamente ************* Crua E esse desejo sempre sobra Transcendendo metáforas Se fosse fome Seria desespero Seria com a daquele filme que você me fez ver Luxúria e asco e excesso E

Marcos Samuel Costa | seis poemas

Chamas  Não chamas o deus, ser não físico, sem matéria, sem húmus, amo, não queimará nenhuma lembrança, a força que fará não tem água, não apaga, ele próprio não queima. O pesadelo em teu quarto, gás vazado, fósforo acesso, estalos, os dedos se estalaram, o crime de tenebrosa vertigem, morra, a casa fica fora da área de perigo, habitantes ausentes na festa, habitantes fugitivos da guerra sem deus, atravessam o mar num navio em chamas. Não habitará nenhuma casa humana, na criação da terra o deus fez terra e mar, oceano é palavra moderna, queimou as paredes, vejam – a intimidade do homem exposta. O homem ficou sem paredes, o quarto sem segredos, queimou, junto das páginas dum livro antigo de Machado, junto a cartas, cigarros febris, famintas chamas, chamas chamas o deus, ele não é como tu de carne, não queima, não morre e vira mármore frio, terra e pó, cinzas da tarde quente, o paraíso ficou na parte obscura dos olhos, ficou na parte seca dos braços. ************ É no meio da n

Ma Njanu | três poemas

dois graus menos que ontem é hoje imagino a sequela da chuva passada uma cova adentrando a vala rasa e mais outra e outra o barro dissolvido à espreita: qualquer sonata vela teu corpo a vala o velho a vespa o vírus abraça a terra, seu sol gira em torno de nós gato não pega rato também não nem mosca nem madeira papéis escritório as grandes corporações o banco só nós - [antropo]centro do mundo agora no entanto, é certa a miséria: aporta no Meireles e vai morrer na Barra. *********** a queda do céu ao inferno [dedicado ao humanismo, e os avanços nem tão queridos da modernidade] quebrou a máquina, desnecessário é viajar no tempo se em cada mão cabe cinco ossos para cada pessoa não enterrada. ********** o desaparecimento dos bichos é a modernidade a galinha vai pro abate eu consciente de sua morte, acaricio sua crista e digo: vai ficar tudo bem muitos cheiros entre dialetos macia é a pelagem sou carinhosa, sempre canto seu corpo e não me delicio nas suas coxas depois de prosseguir

Ana Priscila | quatro poemas

Vigília A realidade é o pesadelo do qual não podemos acordar *********** Esforço O impossível me corrói por dentro, tripudiando a contento de cada esforço por expressá-lo. *********** Mote A morte no monte. Uma p     o     n     t     e Corta! Cena. O norte é a morte A morte é o mote. *********** Engaiolada Eu não sei por quê o pássaro ainda canta na gaiola. Queria ser mais como um pássaro *********** Ana Priscila é advogada, cristã, feminista, psicanalista em formação, professora de italiano, cinéfila, cozinheira autodidata, tenista amadora, enxadrista de araque, flamenguista inveterada, ruiva e nordestina, barroca e andina. Apaixonada por literatura desde a mais tenra idade, tem influências que vão de Kaváfis a Castro Alves. Seu interesse predominante está em investigar as experiências e sensações advindas do divã, traduzindo-as em tessitura poética. 

Lucas Grosso | sete poemas

Fresta Em uma fresta na janela do banheiro entram durante o banho ar e memórias entra um cheiro de peido e a palavra que o gás designa a oração de são Francisco dúvidas e fé Manuel Bandeira um útero um punho um útero do tamanho de um punho Angélica Freitas comendo alcachofras e também Lou Albergaria entra uma tia fumando cigarros num ano novo em Itanhaém entram gotas de homeopatia xarope de hera o girassol do Alceu Valença e a morena tropicana entram pelos ouvidos pedem um orçamento na oficina do diabo e morrem descendo pelo ralo com a espuma do xampu, *********** As pedras O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado quebrando as pedras da calçada vazia O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado limpando as pedras do terreno baldio O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado carregando as pedras da obra abandonada O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado procurando as pedras de u

Felipe Fleury | cinco poemas

Apneia Entre um poema e outro, o que me aflige é a lucidez da cena muda: o mato crescendo nos seus espaços, onde tudo é silêncio e desperdício. Prendo o fôlego dentro do poema sem desistir de respirar, no entanto - até o fim da apneia, meus pulmões serão líquidos -. Expelirei somente o que não for algum delírio. ************* Distopia Não há utopias à vista, nem nos sonhos dos próximos recém-nascidos. Dias correm como as frentes frias e ainda não se inventou uma vacina contra o vírus que transforma pés em cascos. Logo, florestas caberão em terraços e os livros servirão como calços, utensílios erguidos às virtudes da ignorância. A expansão da fronteira agrícola não respeitará os semáforos e as ruas darão lugar a abundantes pastos. A Terra, enfim, depois de tantas tentativas, assumirá a forma cúbica e a escatologia terá o status de ciências humanas. Os analgésicos não aliviarão sequer as dores. Personagens anacrônicas da nova ordem, as flores germinarão da exceção dos jardins. E o

Jennifer Trajano | cinco poemas

lua não amanhece sereno envelhece a terra de mim estandarte há aqui e não deveria é de branco que fazia genocídio de xamã bíblicos versículos gerando ira em tupã girando mira na fé de si tira tirania que atira sangue vermelha o verde da bandeira (esse símbolo que nem é daqui) ********* sussurro a mata me clama quando te clamo vento queima no vaga-lume que sou quando suo em ti a mata me chama quando te chamo ilya descobre nela e faísca em mim ********** jazida folhas secas minam as presas dos felinos nas caças florestais terra, fome, ais mira que não some das favelas sociais ********** fuga gorila batendo em peito de diamante troca a pele corta o instante repele o pó de vidro distante porque o caco de dentro perdeu-se nos dedos ********** cicatriz uma escrava chora no tronco: chibatada utópica do regresso grosso, morto, oco, tão eco como o grito em alvoroço do tigre que não cessa no fundo do poço ********** Engenheira de ilusões, natural de João Pessoa - PB, professor

5 poemas de André Merez

canto do oleiro No barro, navega o gesto, o ventre liso da terra, sua forma imprevista estuda o ângulo do braço, gira em contorno e a molda definitiva. No torno, nem um meneio, um respiro preso, o respeito ao ato, o resto do respiro e uma vida na lida com o método, na luta leve, o equilíbrio. Não há pressa no ofício, há engenho, um segredo. No forno, incandesce sua carne e luz e fogo se unem, corpo vivo em brasa. Reluz a alma do barro, vive sua origem maior em brasa e se enrijece. Na calma, depois do fogo extinto, depois do calor calado, não deixa de ser barro, no entanto é outra arte, une o homem e a terra, o profano e o sagrado. ********** na última sessão do dia Dorme, dorme tudo o que se retira, a fatia do dia, a faca, a fala e o que é da vertigem real. Dorme, dorme o que queria, alçava, a morte esquecida na tarde, a triste tarde de sonolências. Dorme, Morfeu versado em Tânato, esquece o dia, abraça a noite, a sua mãe desesperada e fria também dorme e, ao dormir, alcança a e

3 poemas de Diego Franco Gonçales

cunhambebe ponta de árvore, galho seco a vinte metros desse chão de índios extintos um carcará se arrepia e começa a chover ********** de férias vibram menina, menino e poodle (viram de longe, “cachorro grande!”) e correm: a alegria do medo ********** duc in altum uma ilha ao fim da rua impele um mundo todo novo que não é rua, não é ilha, não é fim ********** Diego Franco Gonçales , nascido e criado no ABC paulista, mora em Caraguatatuba/SP. Pesquisa e ensina Comunicação em universidades; traduz, prepara originais e revisa para o mercado editorial; e é instrutor de krav-maga, arte marcial israelense para defesa pessoal. Publicou o volume bilíngue “Dois contos de Kate Chopin” (Edição do autor, 2019) e teve contos selecionados para revistas literárias (Ruído Manifesto, RelevO, Kurumat'á).

4 poemas de Franck Santos

Cena 13: Desperto às cinco da manhã para perceber que na minha rua já ninguém dorme de janelas abertas Quantas pessoas desertaram? Nesses amanheceres de dias vazios o tempo não tem asas Tenho membros pesados como os dos sonâmbulos ou dos afogados Sinto-me um inseto enorme sem cérebro. Ensinem-me de novo a respirar, caminhar por ruas movimentadas, olhar janelas abertas, sem tédio ou morte ou desertores. Nessas manhãs que a solidão come sucrilhos e maças argentinas, contemplo nas janelas fechadas, nas flores, nos ossos que aparecem sob a pele como após uma longa doença Camadas de orvalhos E canto baixinho uma canção de amor. ************ Para não morrer tanto Este tempo é de coisas que nos deformam Como seres das espécies pelágicas Vivemos acima dos sedimentos Mas ainda há pele tua sobre os lençóis, nos discos acumulados, nas fotografias, nos meus dentes. Seremos sempre deslocados na geografia Como a cicatriz que deixaste, como uma tatuagem, uma explosão, uma catástrofe, O lobo

2 poemas de Lívia Corbellari

mesmo com fraturas manter se de pé mesmo dentro d´água respirar e fora dela prender o ar prédios desabam dentro de mim  ********** murchando presa longe drenada ainda respira e volta a cuidar dos fetos e das begônias ********** Lívia Corbellari nasceu em 1989, em Salvador (BA), mas mora em Vitória (ES) desde 1996. É jornalista, mantém o projeto literário “Livros por Lívia” e também faz parte do núcleo editorial da Revista Trino, sobre literatura brasileira contemporânea. “Carne viva” é seu primeiro livro de poemas.

4 poemas de Mariana Godoy

meu peixe não durou uma semana fingi estar mais triste do que realmente estava maninho e eu nos preparamos para o velório vestindo roupas pretas ele segurava um guarda-chuva como nos filmes americanos enquanto eu carregava o peixe enrolado num pedaço de papel higiênico caminhamos em silêncio até o jardim abrimos um buraco debaixo do limoeiro rezamos pai nosso, ave maria e cantamos a música do menino jesus depois enfeitamos o túmulo com pedras e gravetos perguntei como poderia o peixe ter morrido afogado e maninho respondeu com toda sua sabedoria “colocamos muita água” aquela foi minha primeira vez no teatro. ********** gosto de acompanhar corridas: corridas de pernas, corridas de rodas. muito por conta do meu pai, que falava sem qualquer sinal de vergonha: “o dia mais triste da minha vida, foi o dia que o senna morreu.” nosso passatempo era ficar assistindo as filmagens antigas da fórmula 1. papai comemorava como se não soubesse da vitória: “ayrton! ayrton senna do brasil!” nunca

3 poemas de Lorena Grisi

Pó Todo pó respirado contém oitenta genealogias. Debaixo do osso, nervos adormecem. ********** Sexta Eu vi o mundo acabar um pouquinho, mas tive de ir comprar frutas no supermercado, era sexta, eu vi. Acabava sem fogo ou água, penso nos tantos tolos torcendo, agora tristes, pobres, desde sempre. Há fila e as moças do caixa, todas elas, agora são uniformizadas com laços e coques nos cabelos. Penso no que será de meus cabelos e de meus ossos. Foi pelo chão, que se abriu, mas era sexta, e a cada dia há mais gente que trabalha três turnos. Três são os restos do mundo, guardemos em relicários: dois dedos de terra, rasgos de tecidos, a memória dos dentes. ********** Quadrinha da imunidade presidencial Eu não morro de facada, gripezinha não me pega. Não tem nada a ver com classe, é histórico de atleta. ********** Lorena Grisi é escritora e vive em Salvador (BA). Tem formação em Letras pela Universidade Federal da Bahia e é revisora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tec

2 poemas de Letícia Becker Savastano

cá entre nós lourdes, deve ser esse o nome de sua espera com três pernas que te levariam a sorocaba. rita, encontrei um lugar onde não chove dentro da paranoia não há retorno para a entrada de pessoas na cabine. a onda foi, mas não voltou de tudo e a casa de pedras rosas foi vendida cecília, vão tentar te proibir de colar cartazes. resista à conversão vitória, arrume as fissuras com as próprias mãos, e crie outras com os próprios olhos assim, você sempre será sua. antônia, espere o trem passar e lá verás arte e requinte’moldurada às preferências angela, o cheiro de álcool vem da cavalaria ou do palhaço. dele ninguém quer foto, molotov, queima filme. pouca diversão ********** mecanismos tem lugar que entro com aqui_ lo mas não com isso e tem lug’ ar que nem entro ainda tem’ o lugar qu’invento pra sair pois melhor é o qu’invento entrar ********** Letícia Becker Savastano é arquiteta urbanista (FAU-Mackenzie) e mestranda (FAU-USP ) pensando diálogo

6 poemas de Calí Boreaz

efeito kahlo kuleshov estou imóvel suspeito que me tornei um quadro com debrum de areia pequenas conchas e pontas de cigarro à minha beira está o mar em março ele desatentamente cospe nos meus pés. e através de mim desamarro o vendaval morse / não escutes. ainda estou imóvel sobre mim-onde há uma constelação de abutres como uma indecisão boiando aos fundos de mim-quando há a ficção citadina inacessível entre o tempo da água e o destempero do asfalto a destempo tento — ainda — criar poesia / ay llorona / olhos negros / e crio silêncios. basaltos. silêncios a fazerem sala às tuas perguntas no horário nobre do despresente faço um esforço — me recorto dou um passo na via láctea meus pés imprimindo a marca de água e enquanto me arranco à imobilidade / as tuas perguntas / a cidade se petrifica basaltos. silêncios. solidões acústicas presas na véspera — ou num dia advindo a gastarem-se companhia no horário nobre da vida que é a fina presença da mor

5 poemas de Maíra Vasconcelos

Outono-inverno, 2019. Há diversos modos de se utilizar o frio, por exemplo, cadáveres de humanos e animais sepultados no gelo podem assim permanecer indefinidamente. Há diversos modos de se utilizar o frio quando fabricado industrialmente as câmaras frigoríficas não matam todos os micróbios, mas diminuem sua vitalidade. Há diversos modos de se utilizar o frio e para não perder frutas, vinhos e animais, que não devem estar expostos ao frio extremo, são usados silos, armazéns e sótãos. Há diversos modos de se utilizar o frio e saber como e quando usar as temperaturas é científico e nunca popular como são os termômetros para medir a temperatura corporal, ainda que diante de outro o corpo responderá sempre a uma determinada temperatura tão diferente daquela acumulada com o passar dos anos de uma vida desejando mais abrigo e calor como quem busca silos, armazéns e sótãos. ********** O poema não se cansa do sol torcido nas palhas de um cesto pegando fogo veja as faíscas podem