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Mostrando postagens de Abril, 2020

3 poemas de Felipe Pauluk

aguarrás

tudo o que o ser humano quer
é um deus provisório
uma boca latente de língua grossa
argamassa nos buracos do peito
& aguarrás nos dentes
um asteroide queimando os lábios
fibras no café da manhã
duas tiras de micropore
na sobrancelha esquerda
& muita máscara
máscara para limpar poros
para arrancar cravos
desmanchar a epiderme
derreter a derme
e ferir a hipoderme
tudo o que o ser humano quer
é expor a brancura polida dos ossos de alguém
enosar as tripas no para-choque do foguete
e escrever no vidro de um santana:
"presente de deus"
antes de explodir a si mesmo.

**********

ruínas

eu tenho ruínas no peito
pois é um peito ensanguentado
é um cavalo na corda bamba
um mendigo solitário
enquanto você vai embora
minhas ruínas sangram
sangram os gozos da minha cama
& eu acendo um cigarro
& olho para tua íris
& vejo o reflexo do meu esqueleto
a minha barba rala
minhas rugas
e por fim
vejo que não existo mais
.
olho para teu rosto
& a tristeza escorre negra,
a lágrima lava células mortas
& vo…

2 poemas de Vítor Guima

omissão

muitas vezes passei as tardes
zelando pelas cortinas

analisando as sombras
através dos panos
enquanto
decidia quais dos vidros
poderiam se tornar espelhos

Eros agonizava entre os suspensórios
e um pedaço do oráculo de Delfos discorria
sobre a posição correta das abóboras na fruteira

nos reflexos das pedras,
o calor dos tênis pendurados nos
fios de alta tensão pela janela do hotel

e naqueles dois mil quilômetros
entre adentrar meus templos
e bater as asas,
o discreto trejeito das pintas
ao esboçar um sorriso

**********
os espelhos

ao apagar as luzes
quantos reflexos estão a uma fagulha
da extinção?

é tão difícil parar de reparar
nas sombras dos quartos
formadas pela luz
dos corredores

parar de esperar uma
ventania que leve
o barulho daquela sirene que nunca
parou de tocar

qual poder é maior do que a representação?

partes de nós
precisam morrer para que
o resto viva
(mas talvez não
continuemos
vivendo muito
bem)
nas estimativas

diagramas de olhares
algoritmos de perfumes
hipóteses nas bocas

uma amálgama de prata …

3 poemas de Lucas Luiz

Abelha
para Débora Pietraczk
Os despropósitos encaminham-nos.
Somamos distâncias na busca
do pólen, mel do amor,
desejo intrínseco ao coração
efêmero.

Mesmo entre insucessos lucanos,
vasto campo mal-me-queres,
de tantas pétalas pelo chão,
ainda assim há sinais de
resquícios da chama anil
- este reflexo de céu,
lágrimas de Rá.

Fruto do deus-sol,
abelha mestra,
feito princípio primevo
da existência:
ei-la transparência
solidificada
alma
fértil.

**********
Bula

A fila de almas fadigadas e reclamonas,
com senhas de números intermináveis,
dobra além de Órion.

São Pedro esqueceu-se dos portões do paraíso,
sentado aos pés de Quintana, deleitando-se
com seus versos fantasmais.

Deus tem toda eternidade, azar de quem
apressou-se em morrer.

Quando o tempo é de poesia, eis o melhor
a ser feito: manter-se de ouvido atento
&
vivo.

**********
Sum-ballo

Bastava-me o tênue onírico,
justa via-crúcis entre almas.
O perfume das coisas
imaginadas.
O júbilo desavergonhado.
As pernas trêmulas.
Alguma esperança
de encaixe.

**********

Lucas Lu…

6 poemas de Fábio Pessanha

não aceito que a casa
sucumba à fome por
pessoas. não saio às ruas, não vejo
o sol lá fora, esqueço como se

monta num abraço. arde a
vontade por espaço.
o chão, o laço com quem nunca vi.
é quase como crer nos traços da

invisível mordaça
presenteada. quero,
deus, que seja o aceno no fim da rua
deserta. que o céu seja a cama que

me apanhe num mergulho
às avessas. e aqui,
nesse corpo insólito, é bom fazer
festa com o pouco que resta das horas.

**********
a palavra, esta marca
amarga, aquela ponte larga entre o
silêncio – o turvo enredo ao meio – e
a crise ruidosa da fala – da
grafia envenenada no papel – o
grito encrespado no vocábulo.

palavra:
de todos os nós
a que nunca desata.
**********
terrário
para Glória de presente, um pedaço do mundo. um
pouco da terra. o extrato da vida.
o microcosmo num espaço de vidro.
a respiração. o peso pulsante
do ciclo restabelecido no
circuito das águas. um corpo que
se alarga pra dentro. leve no peito
tudo que for de muito. tudo quanto
for vivo no encanto do mund…

1 poema de Gabriel Morais Medeiros

Madrugada de quinta-feira, antes de subir ao ônibus São Paulo-Paraty, em julho de 2018

I

No terminal rodoviário do Tietê
leio no jornal: um pântano congelado há menos de um milênio
foi detectado enterrado
sob a calota polar setentrional de
              Desdêmona,
lua de Urano.

Sob o seu leito repousarão, em embalagens de óleo amniótico, cristalizável,
as mumificações de
             Gog e Magog,

entre túneis e calabouços metalíferos
e jazidas de
             insulfilm.

II

Não é exatamente a Terra
que é insubstituível:

irrecuperáveis são, antes, estas gengivas feitas de açúcar e goma-xantana,
e as dentadurazinhas de feltro comestível,

que escorrem pelas prateleiras de acrílico

do box onde se vendem jujubas,

e que ostentam, diante de nós, em sua avalanche preguiçosa,
cascatas de fobia melecada,
paralisante, balofa e sintética,

e rósea, rosadíssima, gorduchinha.

Embora nunca se enxerguem uns compradores,
e a loja de

hipopós,
minhoquinhas e
            yummies,
kirbies, dip-’n-licks,
pirocópteros, push-pops…

6 poemas de Lau Siqueira

Sertânica

Metade era
soco

outra metade
sopro

e tudo era tanto
pro meu coração
tão pouco
********** Tapera
O tempo é uma casa
desabitada e esquecida
no meio da estrada.

Quem passou por ela
e viu apenas uma
casa, na verdade não

viu nada.
********** Cânone

aquele poeta
e sua postura
quase mística

escreve
enchendo
linguística
********** Letal

aqueles seios bélicos
apontando seus bicos

...
pequenas torres
do desejo derretendo
em minha
boca ********** Esgrima

metade de mim
é um beco sem saída

caminho sem volta
traçado sem tropeço

lonjuras disfarçadas
desde o começo ********** Gravataria tropical

O homem nos tribunais de cada
dia. A mulher também. Porém,
em inumerável menor número.

Ele na gravata. Ela no salto.

(a vida, na aparência, é o lugar
onde tudo sorri)

A equivalência do salto com a
gravata. A abotoadura digital.
O perfume franco-chinês. Os
babados. Os clichês.

Os que buscam nos códigos
da justiça as leis do sangue
derramado...

Os donos da fome.
Os industriais da infâmia.
Os calhordas da nova ordem.

Os executores do estático
no mundo em movimen…

3 poemas de Carvalho Junior

araruta

somos feitos
das mesmas fomes
dos nossos pais,

das mesmas lenhas
que os guardaram
do frio súbito das noites
caseadeiras de exílios.

de vez em quando,
ouço de longe
a voz da lágrima
do meu pai
e de minha mãe.

um quintal de ararutas
nasce dentro
do chão cansado
dos meus olhos.
********** o silêncio do amor quando acaba

o silêncio do amor quando acaba
caminha, em desespero,
na cata de sementes perdidas.

o silêncio do amor quando acaba
escoiceia o vazio diante do corpo
e lateja como um furúnculo sob a pele.

o silêncio do amor quando acaba,
este que não havia caído antes da segunda corda,
distrai os suicídios, aos domingos,
nas covas das petecas de alegria trincada.


********* O rio e eu

uma folha duma árvore qualquer
dançava na corrente de águas,
flutuávamos o rio e eu
um no silêncio do outro,
até o instante em que mergulhamos
num voo de segredos dos silvos
dum pássaro de nome não revelado.

**********
Carvalho Junior (Francisco de Assis Carvalho da Silva Junior, Caxias/MA, 1985). Professor, ativista cultural, gesto…

3 poemas de Marcus Cardoso

um incêndio não é um incêndio,

um incêndio é o sonho máximo de um fósforo
é uma música quente em notas luzes
são as estrelas que as estrelas veem
é o big bang de todas as sombras

um incêndio são meus dedos nas suas costas de manhã,

********** ouço os estalos
dos nossos beijos
como quem ouve
um ano novo

********** a delicadeza guia
que só a bengala
de um cego
alcança

**********
Marcus Cardoso é poeta, músico e historiador. Vivente na cidade de Ribeirão Pires, lançou as plaquetes todo poeta mente sinceramente (2016) e palimpsesto, eu (2018): ambas de modo independente. Tem poemas publicados nas revistas Vício Velho, Ruído Manifesto, A Bacana, Arribação e no Mural da Kotter Editorial. Escreve, semanalmente, ensaios-prosas-poéticas que teimam em ser chamadas de resenha, para o site FolkdaWorld. É cantautor no projeto reticente. Segue buscando maneiras diversas de atravessar o múltiplo subúrbio da palavra.

4 poemas de Aline Cardoso

Réquiem

Um corvo
Cantará no dia do nosso
Casamento
Uniremos carne e vida
Ao grito prometeico
De quem diz estar
Para sempre atado.
Fígado exposto
Feridas abertas
Vertendo o rubro
Amor de quem se dá
Cru à presa.

********** Fênix

A urgência corrói
Minhas asas,
Pássaro em cinzas,
Reviverei
Em voo limpo

Peito de céu aberto,
Tenho feridas
Ressequidas
Pela fúria com que
Enfrento os dias

********** Euríale

Caí em águas negras
Ontem à noite,
Átrio aço maciço
Penetrando o breu.

Bestas bioluminescentes
Precipitavam-se ronceiras
Farejando os nós
Entre meus seios.

Miose,
Petrifiquei papilas e ardis
Avioletando a carne
Densa de cada lábio.

Euríale, transmutei a morte
Em meu chocalho dourado,
Circunscrevi muitos nomes
Em minhas escamas.

********* Voz

Telúrica-antropofágica
Acherontia atropos
Em voo psíquico-onírico
Mariposa posta
Em teus lábios.

**********
Aline Cardoso é mulher negra, feminista, mãe, doula, professora, escritora, editora e dona de casa – bruxa em tempo integral. Nasceu em João Pessoa no dia 23 de Agosto de 1991. Estudou na rede p…

3 poemas de Isabela Sancho

Greve no zoo

Não serás feroz como esperam
os milhos estourados
do outro lado da jaula.
Dividirás teu bife
com as moscas.
Não rasgarás carnes
que não são caças,
nem copularás didática.
Às três da tarde
talvez demonstres
um mijo lateral,
teu sono de costas
com um rabo que não espanta
o tédio aos tapas -
mortífero aos pais
e suas crianças.

********** Ave

O tempo autoafirmado -
nunca terei uma irmã.
O tempo -
o que sei de ser mãe
é o que noto na minha.
Por entre as pernas,
as marionetistas
botam os seus bonecos
e gritam por eles -
o tempo!
Um parto sem filho -
sempre brinquei de viver
o que não me acontecia
e mantive meu corpo
intacto.
A arte me amará de volta
quando formos velhas?
Nunca saberei o que é ser uma galinha.
Nunca o que é
o próprio pinto entre as mãos.
********** Chá de bebê

Há tantos hormônios no ar
que preciso tomá-lo lá fora
pra não correr o perigo
de meu corpo ser induzido,
sincronizado a contragosto.
Isso já acontece na eliminação,
todas sabemos.
Será que também ocorre
o contágio do contrário?
Minha barriga está chapada …