Pular para o conteúdo principal

6 poemas de Fábio Pessanha


não aceito que a casa
sucumba à fome por
pessoas. não saio às ruas, não vejo
o sol lá fora, esqueço como se

monta num abraço. arde a
vontade por espaço.
o chão, o laço com quem nunca vi.
é quase como crer nos traços da

invisível mordaça
presenteada. quero,
deus, que seja o aceno no fim da rua
deserta. que o céu seja a cama que

me apanhe num mergulho
às avessas. e aqui,
nesse corpo insólito, é bom fazer
festa com o pouco que resta das horas.


**********

a palavra, esta marca
amarga, aquela ponte larga entre o
silêncio – o turvo enredo ao meio – e
a crise ruidosa da fala – da
grafia envenenada no papel – o
grito encrespado no vocábulo.

palavra:
de todos os nós

a que nunca desata.

**********

terrário
para Glória
de presente, um pedaço do mundo. um
pouco da terra. o extrato da vida.
o microcosmo num espaço de vidro.
a respiração. o peso pulsante
do ciclo restabelecido no
circuito das águas. um corpo que
se alarga pra dentro. leve no peito
tudo que for de muito. tudo quanto
for vivo no encanto do mundo. leve
consigo a respiração da terra, o
verde que é síntese e luz. de presente,
minha entrega. o desejo de colheitas,
o destino vindouro, o afeto que
plantamos. leve consigo o que não
sabemos das sementes por brotar;
o caule, o tronco, as folhas e as raízes...
leve o amor que precisa ser regado,
o fundo fosco do prato e, mais que
tudo, leve o futuro a ser plantado.

**********

euforia

dentro do teu olhar
uma faísca rubra
acende o peito eufórico
da palavra num verso

**********

i

acho que te escrevi
um poema por causa
do teu livro. acho que
te fiz umas imagens,
talvez também um livro.

ii

a gente se descobre
nesses lugares longes
onde ninguém se busca
e quase nunca estamos.

**********

a pele era toda suor num acúmulo
de sal que temperava o risco anônimo
das mãos. era um escândalo sentir esse
arranhão salobro ao longo das costas.
nenhum pedaço de pele escapava.
o território orgânico da dor
aumentava conforme se encravavam
estocadas durante o espaço enérgico
do tato. aquelas mãos eram tão cegas,
que erravam o destino escrito nas palmas.
deixavam uma coleção incompleta
de bocas se abrir para receber
o sabor adornado do poema.
aquelas mãos tomavam sal nos dedos,
com festejos onde os infartos desciam
por corações inchados. eram muitas
implosões malsucedidas. o peito
farto dessas dores se enchia de
poesia. a letra rasa do verso
respondia à tortura desses vãos,
que queriam agarrar a palavra
num verso qualquer. até idiomas
eram inventados para que coubessem
tumultos impossíveis nos pulmões.
mas a salinidade do poema
se impunha, seu gosto enchia de sede
a língua que se perdia na própria
saliva. não havia gesto que
fundisse a saciedade da sede
com a hipertrofia desses dedos que
se agarravam a qualquer resquício de
sílaba. nenhum pedaço de pele
escapava. nada que se dizia
encaixava no estranho mapa das
mãos. a pele calejada das palmas
se voltava contra os próprios incêndios.
queimava-se tudo: desde a derme
ao oxigênio, tudo que tangia
o comprimento dessa trama ígnea.
o poema crescia nesse invento
terrorista. queimava-se de tudo.
explodia-se o tenro sabor da
melodia. tacava-se sal nos
olhos do verso que se erguia, a fim
de assegurar a ruína que se
erigia. o poema então foi morto
vítima de sua própria elegia.

**********


Fábio Pessanha é poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética, ambos pela UFRJ. Publicou ensaios em periódicos sobre suas pesquisas, a respeito do sentido poético das palavras, partindo principalmente das obras de Manoel de Barros, Paulo Leminski e Virgílio de Lemos. É autor do livro A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos (Tempo Brasileiro, 2013) e coorganizador do livro Poética e Diálogo: Caminhos de Pensamento (Tempo Brasileiro, 2011). Assina a coluna “palavra : alucinógeno” na Revista Vício Velho. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Diversos Afins, Escamandro, Ruído Manifesto, Sanduíches de realidade, Literatura & Fechadura, Gueto, Escrita Droide, Gazeta de Poesia Inédita, Mallarmargens e na própria Vício Velho.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Marina Magalhães | três poemas

Prelúdios do afogamento. Para violino. Por fim, quando deixarás de alimentar os teus naufrágios? Me perguntaste sem saber que tripulação alguma deseja a própria morte. Nada podem fazer se a carcaça, já tão cheia de buracos, continua       sempre            a afundar.                   A marcha                   fúnebre faz                   glub.                   glub.                   g                   l                   u                   b. *********** Amor de prateleira Os dias vêm sobrando, transbordadas as horas pelo vidro. Tempo deixado em conserva é salgado demais para gente [hiper]tensa. E amassados pelas quatro paredes, a pressão só aumenta. O medo não é que pare o coração. É que ele escorra para fora do copo de conserva, licoroso sobre a estante. O resto engarrafado em plástico sem rótulo. Fosse ele a sobra desvalida. Esquecido, até passada a data de vencimento. *********** Não posso me exilar de mim Melhor seria dar adeus à nossa pátria, é a história que

2 poemas de Lívia Corbellari

mesmo com fraturas manter se de pé mesmo dentro d´água respirar e fora dela prender o ar prédios desabam dentro de mim  ********** murchando presa longe drenada ainda respira e volta a cuidar dos fetos e das begônias ********** Lívia Corbellari nasceu em 1989, em Salvador (BA), mas mora em Vitória (ES) desde 1996. É jornalista, mantém o projeto literário “Livros por Lívia” e também faz parte do núcleo editorial da Revista Trino, sobre literatura brasileira contemporânea. “Carne viva” é seu primeiro livro de poemas.

Cecília Lobo | seis poemas

Troca de passes Há algo de futebolístico Vende-se compra-se Um passe aqui outro ali Era juiz virou ministro Era parceiro agora crítico Troca-troca de legendas Muitos símbolos Mesmos significados Remanejando numa luta Digna da bolsa de valores Os salários Cargos E peixadas Desses homens Furiosos ************ Memória Mudar todos os nomes De ruas, avenidas, viadutos Condenar os algozes Ainda que velhos ou mortos Queimar seus retratos Em praça pública Desenterrar corpos e arquivos Chamar as coisas pelos nomes certos Golpe de estado Tortura Assassinato Censura Ditadura Lembrar O tempo todo ************* Ventre livre Quanto a nós As mulheres Há que se tentar Viver solta Para evitar Morrer De prisões *********** Em Tremores Pupilas Pausas Ênfases Pés Gestos Bocas Tudo que somos Nos trai Discretamente ************* Crua E esse desejo sempre sobra Transcendendo metáforas Se fosse fome Seria desespero Seria com a daquele filme que você me fez ver Luxúria e asco e excesso E