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1 poema de Gabriel Morais Medeiros


Madrugada de quinta-feira, antes de subir ao ônibus São Paulo-Paraty, em julho de 2018

I

No terminal rodoviário do Tietê
leio no jornal: um pântano congelado há menos de um milênio
foi detectado enterrado
sob a calota polar setentrional de
              Desdêmona,
lua de Urano.

Sob o seu leito repousarão, em embalagens de óleo amniótico, cristalizável,
as mumificações de
             Gog e Magog,

entre túneis e calabouços metalíferos
e jazidas de
             insulfilm.

II

Não é exatamente a Terra
que é insubstituível:

irrecuperáveis são, antes, estas gengivas feitas de açúcar e goma-xantana,
e as dentadurazinhas de feltro comestível,

que escorrem pelas prateleiras de acrílico

do box onde se vendem jujubas,

e que ostentam, diante de nós, em sua avalanche preguiçosa,
cascatas de fobia melecada,
paralisante, balofa e sintética,

e rósea, rosadíssima, gorduchinha.

Embora nunca se enxerguem uns compradores,
e a loja de

hipopós,
minhoquinhas e
            yummies,
kirbies, dip-’n-licks,
pirocópteros, push-pops e
palhacitos de acerola e morango

esteja sempre vazia,
mantêm-se acesas, para
            sempre,

suas lâmpadas de isopor e azoto.

III

Na sexta, amanhã mesmo, tomarei o ônibus de volta de Paraty, ao crepúsculo.

Mandarei um vídeo de 

           cumbia jujeña

para minha namorada.

As luzes me serão, pouco a pouco, somente as fagulhas do whatsapp.

No visor, sobre a cabine do motorista –
telinha em formato de charuto –

perceberei a residência de um fantasma come-come.

Num alerta vagaroso,
a pequenina assombração compassadamente surgirá, em sua tarja pixelada,

para indicar aos sonolentos
a ocupação ou desocupação
do banheiro do cometão, aos fundos do
corredor.

Ao desaparecer o guloso ectoplasma do atari,
ao fim de seu trajeto de quarenta centímetros,

meu coração se ferirá com a sensação
de que terá havido uma cifra ou um segredo

para além das informações automáticas,
para além do “boa noite, passageiros”,

e para além, por fim, da impressão
de que a cabine estará trancada,

como cripta, cloaca ou
              fosso

              por Tranca-Rua-das-Almas.

IV

Para minha namorada,

a degustação de qualquer doçura
se lhe tornou proibitiva

desde que ela adoeceu, numa madrugada de noventa e oito,
e perdeu os

             pômulos.

Ela vinha apresentando sinais de enfermidade há muito

tempo,

só que eu acreditava que os sintomas não seriam
duradouros.

**********

Gabriel Morais Medeiros (Campinas,1988) é autor de "Andrômaca, quarenta semestres" (2016) e de "Pornografia em extinção" (2019), livros de poesia publicados pela Patuá. Trabalha como professor de literatura, principalmente no ensino médio, desde 2007. É responsável pela Ofícios Terrestres Edições, criada em 2019.

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Esse sentimento de perda e angústia, numa viagem de comerão numa noite escura, lembrando de uma possível doença de sua namorada

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