Pular para o conteúdo principal

3 poemas de Lucas Luiz


Abelha
para Débora Pietraczk

Os despropósitos encaminham-nos.
Somamos distâncias na busca
do pólen, mel do amor,
desejo intrínseco ao coração
efêmero.

Mesmo entre insucessos lucanos,
vasto campo mal-me-queres,
de tantas pétalas pelo chão,
ainda assim há sinais de
resquícios da chama anil
- este reflexo de céu,
lágrimas de Rá.

Fruto do deus-sol,
abelha mestra,
feito princípio primevo
da existência:
ei-la transparência
solidificada
alma
fértil.


**********

Bula

A fila de almas fadigadas e reclamonas,
com senhas de números intermináveis,
dobra além de Órion.

São Pedro esqueceu-se dos portões do paraíso,
sentado aos pés de Quintana, deleitando-se
com seus versos fantasmais.

Deus tem toda eternidade, azar de quem
apressou-se em morrer.

Quando o tempo é de poesia, eis o melhor
a ser feito: manter-se de ouvido atento
&
vivo.


**********

Sum-ballo

Bastava-me o tênue onírico,
justa via-crúcis entre almas.
O perfume das coisas
imaginadas.
O júbilo desavergonhado.
As pernas trêmulas.
Alguma esperança
de encaixe.


**********


Lucas Luiz da Silva nasceu em Guararema no ano de 1991. Iniciou publicando crônicas no “Jornal D’Guararema” e depois poemas no site de variedades “Guararema Tem” e é redator do programa "Guararema Online" da Produz Áudio&Vídeo. Recentemente colaborou com as Revistas Literárias: Avessa, Inversos, LiteraLivre, Ser Esta, Bibliofilia Cotidiana, A Bacana, Philos, Ruído Manifesto, Subversa e Mallarmargens. Também participa da Antologia “Além do céu, além da terra” da Editora Chiado.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Marina Magalhães | três poemas

Prelúdios do afogamento. Para violino. Por fim, quando deixarás de alimentar os teus naufrágios? Me perguntaste sem saber que tripulação alguma deseja a própria morte. Nada podem fazer se a carcaça, já tão cheia de buracos, continua       sempre            a afundar.                   A marcha                   fúnebre faz                   glub.                   glub.                   g                   l                   u                   b. *********** Amor de prateleira Os dias vêm sobrando, transbordadas as horas pelo vidro. Tempo deixado em conserva é salgado demais para gente [hiper]tensa. E amassados pelas quatro paredes, a pressão só aumenta. O medo não é que pare o coração. É que ele escorra para fora do copo de conserva, licoroso sobre a estante. O resto engarrafado em plástico sem rótulo. Fosse ele a sobra desvalida. Esquecido, até passada a data de vencimento. *********** Não posso me exilar de mim Melhor seria dar adeus à nossa pátria, é a história que

2 poemas de Lívia Corbellari

mesmo com fraturas manter se de pé mesmo dentro d´água respirar e fora dela prender o ar prédios desabam dentro de mim  ********** murchando presa longe drenada ainda respira e volta a cuidar dos fetos e das begônias ********** Lívia Corbellari nasceu em 1989, em Salvador (BA), mas mora em Vitória (ES) desde 1996. É jornalista, mantém o projeto literário “Livros por Lívia” e também faz parte do núcleo editorial da Revista Trino, sobre literatura brasileira contemporânea. “Carne viva” é seu primeiro livro de poemas.

Cecília Lobo | seis poemas

Troca de passes Há algo de futebolístico Vende-se compra-se Um passe aqui outro ali Era juiz virou ministro Era parceiro agora crítico Troca-troca de legendas Muitos símbolos Mesmos significados Remanejando numa luta Digna da bolsa de valores Os salários Cargos E peixadas Desses homens Furiosos ************ Memória Mudar todos os nomes De ruas, avenidas, viadutos Condenar os algozes Ainda que velhos ou mortos Queimar seus retratos Em praça pública Desenterrar corpos e arquivos Chamar as coisas pelos nomes certos Golpe de estado Tortura Assassinato Censura Ditadura Lembrar O tempo todo ************* Ventre livre Quanto a nós As mulheres Há que se tentar Viver solta Para evitar Morrer De prisões *********** Em Tremores Pupilas Pausas Ênfases Pés Gestos Bocas Tudo que somos Nos trai Discretamente ************* Crua E esse desejo sempre sobra Transcendendo metáforas Se fosse fome Seria desespero Seria com a daquele filme que você me fez ver Luxúria e asco e excesso E