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Ma Njanu | três poemas

dois graus menos que ontem é hoje imagino a sequela da chuva passada uma cova adentrando a vala rasa e mais outra e outra o barro dissolvido à espreita: qualquer sonata vela teu corpo a vala o velho a vespa o vírus abraça a terra, seu sol gira em torno de nós gato não pega rato também não nem mosca nem madeira papéis escritório as grandes corporações o banco só nós - [antropo]centro do mundo agora no entanto, é certa a miséria: aporta no Meireles e vai morrer na Barra. *********** a queda do céu ao inferno [dedicado ao humanismo, e os avanços nem tão queridos da modernidade] quebrou a máquina, desnecessário é viajar no tempo se em cada mão cabe cinco ossos para cada pessoa não enterrada. ********** o desaparecimento dos bichos é a modernidade a galinha vai pro abate eu consciente de sua morte, acaricio sua crista e digo: vai ficar tudo bem muitos cheiros entre dialetos macia é a pelagem sou carinhosa, sempre canto seu corpo e não me delicio nas suas coxas depois de prosseguir...

Ana Priscila | quatro poemas

Vigília A realidade é o pesadelo do qual não podemos acordar *********** Esforço O impossível me corrói por dentro, tripudiando a contento de cada esforço por expressá-lo. *********** Mote A morte no monte. Uma p     o     n     t     e Corta! Cena. O norte é a morte A morte é o mote. *********** Engaiolada Eu não sei por quê o pássaro ainda canta na gaiola. Queria ser mais como um pássaro *********** Ana Priscila é advogada, cristã, feminista, psicanalista em formação, professora de italiano, cinéfila, cozinheira autodidata, tenista amadora, enxadrista de araque, flamenguista inveterada, ruiva e nordestina, barroca e andina. Apaixonada por literatura desde a mais tenra idade, tem influências que vão de Kaváfis a Castro Alves. Seu interesse predominante está em investigar as experiências e sensações advindas do divã, traduzindo-as em tessitura poética. 

Lucas Grosso | sete poemas

Fresta Em uma fresta na janela do banheiro entram durante o banho ar e memórias entra um cheiro de peido e a palavra que o gás designa a oração de são Francisco dúvidas e fé Manuel Bandeira um útero um punho um útero do tamanho de um punho Angélica Freitas comendo alcachofras e também Lou Albergaria entra uma tia fumando cigarros num ano novo em Itanhaém entram gotas de homeopatia xarope de hera o girassol do Alceu Valença e a morena tropicana entram pelos ouvidos pedem um orçamento na oficina do diabo e morrem descendo pelo ralo com a espuma do xampu, *********** As pedras O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado quebrando as pedras da calçada vazia O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado limpando as pedras do terreno baldio O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado carregando as pedras da obra abandonada O mundo está gritando mas você não escuta porque está muito ocupado procurando as pedras de u...

Felipe Fleury | cinco poemas

Apneia Entre um poema e outro, o que me aflige é a lucidez da cena muda: o mato crescendo nos seus espaços, onde tudo é silêncio e desperdício. Prendo o fôlego dentro do poema sem desistir de respirar, no entanto - até o fim da apneia, meus pulmões serão líquidos -. Expelirei somente o que não for algum delírio. ************* Distopia Não há utopias à vista, nem nos sonhos dos próximos recém-nascidos. Dias correm como as frentes frias e ainda não se inventou uma vacina contra o vírus que transforma pés em cascos. Logo, florestas caberão em terraços e os livros servirão como calços, utensílios erguidos às virtudes da ignorância. A expansão da fronteira agrícola não respeitará os semáforos e as ruas darão lugar a abundantes pastos. A Terra, enfim, depois de tantas tentativas, assumirá a forma cúbica e a escatologia terá o status de ciências humanas. Os analgésicos não aliviarão sequer as dores. Personagens anacrônicas da nova ordem, as flores germinarão da exceção dos jardins. E o...

Jennifer Trajano | cinco poemas

lua não amanhece sereno envelhece a terra de mim estandarte há aqui e não deveria é de branco que fazia genocídio de xamã bíblicos versículos gerando ira em tupã girando mira na fé de si tira tirania que atira sangue vermelha o verde da bandeira (esse símbolo que nem é daqui) ********* sussurro a mata me clama quando te clamo vento queima no vaga-lume que sou quando suo em ti a mata me chama quando te chamo ilya descobre nela e faísca em mim ********** jazida folhas secas minam as presas dos felinos nas caças florestais terra, fome, ais mira que não some das favelas sociais ********** fuga gorila batendo em peito de diamante troca a pele corta o instante repele o pó de vidro distante porque o caco de dentro perdeu-se nos dedos ********** cicatriz uma escrava chora no tronco: chibatada utópica do regresso grosso, morto, oco, tão eco como o grito em alvoroço do tigre que não cessa no fundo do poço ********** Engenheira de ilusões, natural de João Pessoa - PB, professor...

5 poemas de André Merez

canto do oleiro No barro, navega o gesto, o ventre liso da terra, sua forma imprevista estuda o ângulo do braço, gira em contorno e a molda definitiva. No torno, nem um meneio, um respiro preso, o respeito ao ato, o resto do respiro e uma vida na lida com o método, na luta leve, o equilíbrio. Não há pressa no ofício, há engenho, um segredo. No forno, incandesce sua carne e luz e fogo se unem, corpo vivo em brasa. Reluz a alma do barro, vive sua origem maior em brasa e se enrijece. Na calma, depois do fogo extinto, depois do calor calado, não deixa de ser barro, no entanto é outra arte, une o homem e a terra, o profano e o sagrado. ********** na última sessão do dia Dorme, dorme tudo o que se retira, a fatia do dia, a faca, a fala e o que é da vertigem real. Dorme, dorme o que queria, alçava, a morte esquecida na tarde, a triste tarde de sonolências. Dorme, Morfeu versado em Tânato, esquece o dia, abraça a noite, a sua mãe desesperada e fria também dorme e, ao dormir, alcança a e...

3 poemas de Diego Franco Gonçales

cunhambebe ponta de árvore, galho seco a vinte metros desse chão de índios extintos um carcará se arrepia e começa a chover ********** de férias vibram menina, menino e poodle (viram de longe, “cachorro grande!”) e correm: a alegria do medo ********** duc in altum uma ilha ao fim da rua impele um mundo todo novo que não é rua, não é ilha, não é fim ********** Diego Franco Gonçales , nascido e criado no ABC paulista, mora em Caraguatatuba/SP. Pesquisa e ensina Comunicação em universidades; traduz, prepara originais e revisa para o mercado editorial; e é instrutor de krav-maga, arte marcial israelense para defesa pessoal. Publicou o volume bilíngue “Dois contos de Kate Chopin” (Edição do autor, 2019) e teve contos selecionados para revistas literárias (Ruído Manifesto, RelevO, Kurumat'á).