Pular para o conteúdo principal

Lucas Grosso | sete poemas


Fresta

Em uma fresta na janela do banheiro
entram durante o banho
ar e memórias
entra um cheiro de peido
e a palavra que o gás designa
a oração de são Francisco
dúvidas e fé
Manuel Bandeira
um útero
um punho
um útero do tamanho de um punho
Angélica Freitas comendo alcachofras
e também
Lou Albergaria
entra uma tia fumando cigarros num ano novo em Itanhaém
entram gotas de homeopatia
xarope de hera
o girassol do Alceu Valença
e a morena tropicana

entram pelos ouvidos
pedem um orçamento
na oficina do diabo
e morrem
descendo pelo ralo
com a espuma do xampu,

***********

As pedras

O mundo está gritando
mas você não escuta porque
está muito ocupado quebrando
as pedras da calçada
vazia

O mundo está gritando
mas você não escuta porque
está muito ocupado limpando
as pedras do terreno
baldio

O mundo está gritando
mas você não escuta porque
está muito ocupado carregando
as pedras da obra
abandonada

O mundo está gritando
mas você não escuta porque
está muito ocupado procurando
as pedras de um rim
operado

O mundo está gritando
mas você não escuta por causa
das pedras
das pedras que

você


***********

Hora


Chegou a hora de pararmos de brincar
que somos soldados de plástico do forte apache;
chegou a hora de pararmos de pensar
que nossas palavras sejam as pedras do asfalto;
chegou a hora de pararmos de crer
que nossos discursos dos almoços de domingo ecoarão;
chegou a hora de pararmos de pregar
missais romanos para os periquitos empoleirados nos parques;
chegou a hora de pararmos de escrever
manifestos sociais à giz nas avenidas de madrugada;
chegou a horar de pararmos de perder
nosso tempo contando as letras de palavras proparoxítonas;
chegou a hora de pararmos de fingir
que nossos gritos de surpresa e dor são sinceros;
chegou a hora de pararmos de rir
diariamente das formigas que insistem em invadir açucareiros;
chegou a hora de pararmos de insistir
em erguer pontes estaiadas com cabos de macarrão instantâneo.

Você não está escutando
os ruídos que os pés descalços estão fazendo
nessa estrada de terra seca?

Você não está vendo
as sombras que as mãos erguidas estão produzindo
nessa parede de cimento queimado?

As horas mudaram
como mudam as nuvens de forma quando
depois de um terrível calor
se avizinha uma tempestade.

Olhar as mudanças com olhos de microbiologista
e operar os vindouros com mãos de carpinteiro
é a verdadeira arte que acontece agora.

***********

Solidão


quero reinventar a palavra solidão
palavra que não descreve o fátuo
ato de desejar e desistir
em meio a tantos amigos de ocasião

quero reinventar a palavra solidão
que não serve mais para dizer
o que é que paira no ar
depois de algumas horas de transformação

quero reinventar a palavra solidão
que está desgastada e insuficiente
e que não mais nomeia o espectro
de um tempo de isolamento e distração

***********

Infância


quando eu juntar todas as letras
que forma a palavra infância
infância não mais será
são poucos os tipos
da palavra
como são poucos os anos
do principiar
mas são ambos os casos
um montante suficiente
para uma nova organização
do que em essência ainda sendo
o que foi no começo
agora
outra coisa
será

talvez o mosaico que surja
primeiro não signifique muito
mas a raiz decomposta
estará lá
estarão lá a infância
os anos
e a palavra
bastará apenas
procurar

***********

o tempo
      passa como
        o balanço de
      uma
rede

o tempo permite
      quebrar o
tempo em
   grãos e
  sementes

o tempo
   fala como o
   acalanto de
       namorados

o tempo é
uma flanela
 nos dias
frios

************

uma garrafa de vinho
com uma xícara no gargalo
como um soldado
me vigiando os paços

dois bambus crescendo
numa garrafa de suco
jiboias em garrafas de cerveja
e um mamoeiro em
um vaso de barro

composição de uma florestinha
contra a selva de
canteiros de obra
que nos cerca

************

Lucas Grosso é o autor dos livros de poesia Nada (Patuá, 2019) e Hinário Ateu (Urutau, no prelo). Já publicou em revistas como Mallarmargens, 7Faces, Zunái e publica com regularidade nas revistas Úrsula e Subversa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Marina Magalhães | três poemas

Prelúdios do afogamento. Para violino. Por fim, quando deixarás de alimentar os teus naufrágios? Me perguntaste sem saber que tripulação alguma deseja a própria morte. Nada podem fazer se a carcaça, já tão cheia de buracos, continua       sempre            a afundar.                   A marcha                   fúnebre faz                   glub.                   glub.                   g                   l                   u                   b. *********** Amor de prateleira Os dias vêm sobrando, transbordadas as horas pelo vidro. Tempo deixado em conserva é salgado demais para gente [hiper]tensa. E amassados pelas quatro paredes, a pressão só aumenta. O medo não é que pare o coração. É que ele escorra para fora do copo de conserva, licoroso sobre a estante. O resto engarrafado em plástico sem rótulo. Fosse ele a sobra desvalida. Esquecido, até passada a data de vencimento. *********** Não posso me exilar de mim Melhor seria dar adeus à nossa pátria, é a história que

3 poemas de Isabela Sancho

Greve no zoo Não serás feroz como esperam os milhos estourados do outro lado da jaula. Dividirás teu bife com as moscas. Não rasgarás carnes que não são caças, nem copularás didática. Às três da tarde talvez demonstres um mijo lateral, teu sono de costas com um rabo que não espanta o tédio aos tapas - mortífero aos pais e suas crianças. ********** Ave O tempo autoafirmado - nunca terei uma irmã. O tempo - o que sei de ser mãe é o que noto na minha. Por entre as pernas, as marionetistas botam os seus bonecos e gritam por eles - o tempo! Um parto sem filho - sempre brinquei de viver o que não me acontecia e mantive meu corpo intacto. A arte me amará de volta quando formos velhas? Nunca saberei o que é ser uma galinha. Nunca o que é o próprio pinto entre as mãos. ********** Chá de bebê Há tantos hormô nios no ar que preciso tomá-lo lá fora pra não correr o perigo de meu corpo ser induzido, sincronizado a contragosto. Isso já acontece na eliminação, todas sabemos. Se

6 poemas de Ricardo Escudeiro

scorpion faz então uma lista de antagonistas dos mortos vivos conta pra gente dos prós e dos contras das maneiras pelas quais o que somos enquanto fim é processado tem aquele que sabe do preparo de rostos pra cortejos quem inventou que isso fosse um emprego e não uma situação desconfortável ele dizia pra gente de uma história de uma coxia de incinerar e da véspera das faces em sua intensa espera tudo isso acaba deixando a gente pra baixo será que convém trocar a pele dos nossos mortos antes de assoprá-los é bem provável ********** lynch no céu tudo está bem desde que a entidade no planeta que às vezes pode ser o prédio ao lado ou o flare de uma tradicional empresa de derivados petroquímicos ou mesmo a cabeça de um neném transformada num planeta que se parte ao meio desde que essa entidade em alguns sites em certos sítios já chamada de o homem no planeta o homem doente na cabana ou veja só ah não se sabe bem do que se trata desde que essa entidade se mantenha a si numa