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4 poemas de Anna Apolinário


As bruxas sussurram meu nome

Com furiosa doçura,
permaneço olhando para o fogo.
Eis a chave,
escondida sob a língua.
O sangue ressurgirá,
concupiscente, em cada sílaba.

**********
Os amantes invisíveis

Esta noite, nossa volúpia violará todas as portas
da cidade sufocada em silêncio e solidão.
As chaves ardem e vibram em nossas mãos,
invisíveis e subversivos,
somos fragmentos de sonho e feitiço
que se atrevem a vencer o veneno dos dias.

Nosso louco abraço é o pacto,
tua boca murmura secreta carícia:
poesia, amor, liberdade,
três punhais riscando meu peito,
sangue aflorado ao cerne do desejo.
Então deslizas com teu beijo
aos meus misteriosos bosques
em lento, doce desespero,
para saciar uma sede antiga e abrigar tua língua
ao sabor de um manancial em chamas.

A cidade sitiada estremece
e nossos corpos entorpecidos não recuam.
Metamorfose de elementos desconhecidos,
indícios de uma secreta alquimia.
Tua pele me cerca, suplicante,
a febre aumenta e nos enlaça em tempestuoso delírio.

Há entre nós, fúria suficiente
para aplacar o espanto e o medo da morte,
intoxicados de vida, perigosamente respiramos.
Somos a célula incendiária que sussurra a cura e a revolução.

(Quarentena, março de 2020)

**********
Transe

Moiras e alquimistas,
em lenta carícia,
elas surgem
com seus mágicos unguentos.
Lágrimas de mandrágoras,
enigmas de artemísias.
Em negras, brilhantes bagas:
o beijo da Belladonna.
Entre labaredas levitam,
endiabradas bailarinas.

**********
Figueira do Inferno

Pela escuridão de teu corpo,
meus fios acobreados flutuam:
feitiço e fúria, alucinação.
As raízes vicejam:
teia predatória.
Se tocas o núcleo cintilante,
a seiva, por inteiro te queima.
**********

Anna Apolinário nasceu em 28 de julho de 1986, sob o signo de Leão. Feiticeira da palavra, escreveu os grimórios poéticos Solfejo de Eros (CBJE, 2010), Mistrais (Prêmio Literário Augusto dos Anjos, Edições Funesc, 2014), Zarabatana (Patuá, 2016), Magmáticas Medusas (Cintra/ARC Edições, 2018) e A chave selvagem do sonho (Triluna, 2020). Celebra a poesia feita por mulheres e incendeia o patriarcado através do Sarau Selváticas. Reside em João Pessoa, Paraíba.

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