Pular para o conteúdo principal

6 poemas de Ricardo Escudeiro


scorpion

faz então uma lista de antagonistas dos mortos vivos
conta pra gente dos prós e dos contras
das maneiras pelas quais o que somos enquanto fim
é processado

tem aquele que sabe do preparo de rostos pra cortejos
quem inventou que isso fosse um emprego e não
uma situação desconfortável
ele dizia pra gente de uma história
de uma coxia de incinerar
e da véspera das faces em sua intensa espera
tudo isso acaba deixando a gente pra baixo
será que convém
trocar a pele dos nossos mortos
antes de assoprá-los
é bem provável


**********
lynch

no céu
tudo está bem
desde que a entidade no planeta
que às vezes pode ser o prédio ao lado ou
o flare de uma tradicional empresa de derivados petroquímicos
ou mesmo a cabeça de um neném
transformada num planeta que se parte ao meio
desde que essa entidade
em alguns sites em certos sítios já chamada de
o homem no planeta o homem doente na cabana ou veja só
ah não se sabe bem do que se trata
desde que essa entidade se mantenha a si
numa deformidade que é tanto mas tanto dela quanto
não é só dela
uma deformidade típica
dos entes manejadores de alavancas

no céu
tudo está bem

de resto a praxe das matérias primas
o barro ou o aço ou um flagelo feito de sêmen e ovário
o que vale
é a especificidade hierárquica de um animal espelhado
que cá embaixo ficamos mantenedores
das perfectividades do alto revestimos órgãos tripas
e mais o que seja essa nossa materialidade
com refugos de ataduras que vão sustendo
essas nossas partes não removíveis

nem pele nem vaso

como é que pode uma inexistência de tempestade
vergar as telhas todas de uma casa
mas bem aí é que o interlocutor enquanto metamorfo
se torna o interrogador dizendo então
lemos aqui que você comentou
que essa é sua obra mais espiritual
o que diria se propuséssemos o seguinte
discorra mais sobre isso

eu diria não
não é preciso

e no céu
tudo estará bem
no céu tudo é perfeito



**********
rolimã

quando a coragem
nascia era no meio da favela
com os pés
rachando a terra e os asfaltos
joelhos e cotovelos
em trepidação entre o ferimento e a possibilidade
e o vento
germinando nas palmas das nossas mãos



**********
ogdru jahad
Des Vermis Mysteriis, página 87

sonho eu numa espécie de jangada com pessoas
que não consigo identificar
carcaças
de lugar nenhum alguns tanques de guerra
começam a mergulhar no que mais parecia um lago
não necessariamente um mar daqueles a que chamaríamos
um dos sete
pois calmo ainda que sob o ataque desses carros bravos
eis um submarino todo aceso em verde
como em neon iluminado
passa por baixo de nós em profundidade
que o deixa todo visível mesmo submerso
seja visto
tanto cá de onde estamos ou lá das regiões mais frias do espaço
ele se apaga de repente em nada
sentimos os cheiros e as formas e as premissas
de coisas marinhas desconhecidas em decomposição
começa uma sensação de horror de arrogância de acolhimento
em meio a escuridão e
silêncio de água
pulamos nas águas e nadamos despreparados
o chão dos oceanos que já nos tocava as costas

de então em diante sabíamos de um jeito diferente
o pão
o cada dia
o modo pelo qual deitar fora da terra o que é sólido e miserável
uma insciência que falia de modo coletivo
pois ainda
que não os enxergássemos sabíamo-nos
sob os oito abraços de cada um dos seus oito tentáculos

e será que nunca mais pisotearíamos lugares místicos


quer dizer
que se a forma da água é tudo
aquilo que ela toca
fim


**********
última garrafa que lançamos ao cosmo
“I'll be fine
I'll be waiting patiently”
(Depeche Mode, In: “Aquaman OST”)

lembra quando ousáramos pensar o tempo
enquanto lugar enquanto vazio lembra
quando sabíamos o que aquilo nos reservava mas
como é que poderíamos
nas mensagens codificadas ao que não percebemos
encubar os horrores e as calmarias não se sabe qual
é o que vem primeiro qual
o tanto de caracteres necessários
decerto mesmo que uns amores acontecem no entremeio

não importa o teor ou a índole das escuridões
toda essa luz de agora que consumimos
de coisas celestes
toda essa luz vem do passado e só podemos chamar
típicos
os lugares que se assemelhem
ao vácuo

o ponto euxino lá do alto
quê é que é isso
euxino

não
é que às vezes usamos certo nome só por acharmos bonito
o som preenchendo um tempo
é pungente e é raro e é belo
a sonoridade que propicia
um píer que só entregasse partidas
a solidão extrema a solidão em um ápice
vida
cercada de água por todas as possibilidades
enquanto
o céu contava pra gente uma noite
que muito parecia uma mentira



**********
como dizer minha querida em gaélico
"Anne: É linda.
Georges: O quê?
Anne: A vida. É tanto tempo. A longa vida.”


procurando algo que não me lembro no youtube
por ocasião de uma outra coisa da qual também não lembro
se por conta da perda de um bicho ou por um término ou
por ter acabado
de ver determinado filme não lembro
mas acabei na música somewhere over the rainbow
de israel kamakawiwo'ole trilha sonora do filme
como se fosse a primeira vez
protagonizado por adam sandler e drew barrimore
ao acionar a barra de rolagem o primeiro comentário
sim eu leio às vezes os comentários
era esse
eu planejo usar essa canção em meu funeral
tenho câncer estágio quatro e só rezo
pra que eu possa ver mais alguns sonhos antes
de voar por trás das nuvens
a esse comentário seguiam-se outros dos mais lindos
dos mais variados tipos ao longo dos mais ou menos
doze meses desde que o primeiro fora postado
sem qualquer tipo de resposta por parte
da pessoa que postara aquele
e já não me lembro porque comecei a dizer tudo isso
do mesmo modo pelo qual não me lembro onde ouvi
essa outra história não lembro
sequer se é história ouvida mas a história
era essa
papai foi com o cachorro e uma pá papai voltou só
com a pá

e paro por aqui
aqui eu me retiro 



**********


Ricardo Escudeiro lança novo livro no Patuscada - Arribação
os poemas dessa edição fazem parte do livro A implantação de um trauma e seu sucesso (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019)
**********

Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas A implantação de um trauma e seu sucesso (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), Rachar átomos e depois (Editora Patuá, 2016) e Tempo espaço re tratos (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Criou e ministrou, em 2019, o curso livre “Violências simbólicas e históricas em literaturas de língua portuguesa – poder, diversidade”, oferecido no campus Santo André da UFABC. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Escamandro, Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique.

Comentários

  1. Me emocionei com "como dizer minha querida em gaélico".
    Sou fã dos poemas do Ricardo há anos. Nunca me decepciona.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

6 poemas de Lau Siqueira

Sertânica Metade era soco outra metade sopro e tudo era tanto pro meu coração tão pouco ********** Tapera O tempo é uma casa desabitada e esquecida no meio da estrada. Quem passou por ela e viu apenas uma casa, na verdade não viu nada. ********** Cânone aquele poeta e sua postura quase mística escreve enchendo linguística ********** Letal aqueles seios bélicos apontando seus bicos ... pequenas torres do desejo derretendo em minha boca ********** Esgrima metade de mim é um beco sem saída caminho sem volta traçado sem tropeço lonjuras disfarçadas desde o começo ********** Gravataria tropical O homem nos tribunais de cada dia. A mulher também. Porém, em inumerável menor número. Ele na gravata. Ela no salto. (a vida, na aparência, é o lugar onde tudo sorri) A equivalência do salto com a gravata. A abotoadura digital. O perfume franco-chinês. Os babados. Os clichês. Os que buscam nos códigos da justiça as leis do sangue derramado... Os donos da fome. Os in

3 poemas de Isabela Sancho

Greve no zoo Não serás feroz como esperam os milhos estourados do outro lado da jaula. Dividirás teu bife com as moscas. Não rasgarás carnes que não são caças, nem copularás didática. Às três da tarde talvez demonstres um mijo lateral, teu sono de costas com um rabo que não espanta o tédio aos tapas - mortífero aos pais e suas crianças. ********** Ave O tempo autoafirmado - nunca terei uma irmã. O tempo - o que sei de ser mãe é o que noto na minha. Por entre as pernas, as marionetistas botam os seus bonecos e gritam por eles - o tempo! Um parto sem filho - sempre brinquei de viver o que não me acontecia e mantive meu corpo intacto. A arte me amará de volta quando formos velhas? Nunca saberei o que é ser uma galinha. Nunca o que é o próprio pinto entre as mãos. ********** Chá de bebê Há tantos hormô nios no ar que preciso tomá-lo lá fora pra não correr o perigo de meu corpo ser induzido, sincronizado a contragosto. Isso já acontece na eliminação, todas sabemos. Se

ESTAMOS NO AR!

A Revista Contempo estreia nesse abril de 2020 com o compromisso de circular a poesia brasileira contemporânea. Por acreditar nas revistas e periódicos, digitais ou impressos, como espaços democráticos para a promoção da literatura, temos o prazer de fazer o convite para que originais sejam enviados de acordo com as diretrizes descritas aqui . Vamos juntos!