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5 poemas de Maíra Vasconcelos


Outono-inverno, 2019.
Há diversos modos de se utilizar o frio,
por exemplo, cadáveres de humanos
e animais sepultados no gelo
podem assim permanecer indefinidamente.
Há diversos modos de se utilizar o frio
quando fabricado industrialmente
as câmaras frigoríficas
não matam todos os micróbios,
mas diminuem sua vitalidade.
Há diversos modos de se utilizar o frio
e para não perder frutas, vinhos
e animais, que não devem
estar expostos ao frio extremo,
são usados silos, armazéns e sótãos.
Há diversos modos de se utilizar o frio
e saber como e quando usar as temperaturas
é científico e nunca popular
como são os termômetros
para medir a temperatura corporal,
ainda que diante de outro
o corpo responderá
sempre a uma determinada temperatura
tão diferente daquela acumulada
com o passar dos anos de uma vida
desejando mais abrigo e calor
como quem busca silos, armazéns e sótãos.



**********

O poema não se cansa do sol torcido
nas palhas de um cesto pegando fogo
veja
as faíscas podem ser o poema
se dissolvem no ar e desaparecem
rápidas bonitas chamas penetram o dia
para talvez ser poema
em cada faísca essa sensação obscura
de logo não haver nada mais
onde apenas se esperará cinzas
e o que eram faíscas a um segundo atrás
veja
apagou e acabou no tempo
como quando se termina um poema.



**********

Uma tesoura aquática percorre meus olhos
esse poço fundo da mirada
esse espaço de onde não se sai
para engano de todos que esperam conclusões
ou ao menos uma presença.



**********

Ainda cabem pássaros em poemas
mas apenas se de asas presas
como agora em minhas mãos
há anos ofega um pássaro.
Ainda que a palavra pássaro seja uma coisa
e os pássaros sejam outra coisa
como diz Juan Gelman
sobre o amor e a palavra amor.
Mas aqui os pássaros e a palavra pássaro
estão caídos atados em outras palavras.


**********

Ontem vendi um livro
e chovia bastante em Buenos aires
quando fiz a transação, abri a porta de casa
e nos despedimos:
era uma pessoa e não um pássaro
foi embora com o livro em mãos.
Antes de abri-lo
disse que iria gostar muito
e entrou no táxi:
era uma pessoa e não um pássaro
foi embora com o livro em mãos.
Acompanhei a rápida passagem
de mim ao outro que desaparecia
com as palavras escritas indo embora
como deve ser e acontecer
nessa negociação sutil
o livro permanecia incrivelmente
seco e firme meus olhos viam
apenas a chuva, as águas e o livro
indo embora:
era uma pessoa e não um pássaro
porque os livros não voam
e as águas cessam de chover.

**********

Maíra Vasconcelos, jornalista e escritora, de Belo Horizonte. Escreve crônicas, desde 2014, no Jornal GGN. Um quarto que fala (Editora Urutau, 2018) é seu primeiro livro de poemas. Reside em Buenos Aires, é mestranda em Estudos Literários, na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires (FILO-UBA).

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