Pular para o conteúdo principal

4 poemas de Mariana Godoy


meu peixe não durou uma semana
fingi estar mais triste do que realmente estava
maninho e eu nos preparamos para o velório
vestindo roupas pretas

ele segurava um guarda-chuva
como nos filmes americanos
enquanto eu carregava o peixe enrolado
num pedaço de papel higiênico

caminhamos em silêncio até o jardim
abrimos um buraco debaixo do limoeiro
rezamos pai nosso, ave maria
e cantamos a música do menino jesus

depois enfeitamos o túmulo com pedras
e gravetos

perguntei como poderia o peixe ter morrido afogado
e maninho respondeu
com toda sua sabedoria
“colocamos muita água”

aquela foi minha primeira vez no teatro.

**********

gosto de acompanhar corridas:
corridas de pernas,
corridas de rodas.

muito por conta do meu pai,
que falava sem qualquer sinal de vergonha:

“o dia mais triste da minha vida,
foi o dia que o senna morreu.”

nosso passatempo era ficar assistindo
as filmagens antigas da fórmula 1.

papai comemorava como se não soubesse da vitória:
“ayrton! ayrton senna do brasil!”

nunca o chamou de herói.

aliás, sempre tivemos medo de heróis:
sejam de pistas
ou de planaltos.

**********

mamãe trabalhava como bilheteira na rodoviária
maninho e eu saíamos do primário
e ficávamos o dia todo com ela
vendo ônibus chegar
ônibus partir

certa vez começamos a cantar “lady laura”
pra ver se o tempo passava rápido
porque o relógio funciona assim:
vai depressa quando estamos gostando da vida

à medida que cantávamos
uma roda ia se formando:
o povo todo choroso
mamãe também

eu disse que deveríamos ser cantores
pois tínhamos talento
mas maninho retrucou:

- claro que não, sua tonta. é que todo mundo tem mãe.

depois o povo embarcou pro mundo
e nós também.

**********

não basta placa de perigo
ou jet ski nessa praia
o mar é traiçoeiro
encobre os buracos feitos
pela pá da infância.

**********

Mariana Godoy, atriz e pesquisadora da educação, nasceu em 1996. Publicou em setembro de 2019 o livro “O afogamento de Virginia Woolf” pela Editora Patuá. Possui publicações em mídias digitais e impressas, tais como: Escamandro, Arribação, Jornal Relevo, Poesia Primata, entre outras.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

6 poemas de Lau Siqueira

Sertânica Metade era soco outra metade sopro e tudo era tanto pro meu coração tão pouco ********** Tapera O tempo é uma casa desabitada e esquecida no meio da estrada. Quem passou por ela e viu apenas uma casa, na verdade não viu nada. ********** Cânone aquele poeta e sua postura quase mística escreve enchendo linguística ********** Letal aqueles seios bélicos apontando seus bicos ... pequenas torres do desejo derretendo em minha boca ********** Esgrima metade de mim é um beco sem saída caminho sem volta traçado sem tropeço lonjuras disfarçadas desde o começo ********** Gravataria tropical O homem nos tribunais de cada dia. A mulher também. Porém, em inumerável menor número. Ele na gravata. Ela no salto. (a vida, na aparência, é o lugar onde tudo sorri) A equivalência do salto com a gravata. A abotoadura digital. O perfume franco-chinês. Os babados. Os clichês. Os que buscam nos códigos da justiça as leis do sangue derramado... Os donos da fome. Os in

3 poemas de Isabela Sancho

Greve no zoo Não serás feroz como esperam os milhos estourados do outro lado da jaula. Dividirás teu bife com as moscas. Não rasgarás carnes que não são caças, nem copularás didática. Às três da tarde talvez demonstres um mijo lateral, teu sono de costas com um rabo que não espanta o tédio aos tapas - mortífero aos pais e suas crianças. ********** Ave O tempo autoafirmado - nunca terei uma irmã. O tempo - o que sei de ser mãe é o que noto na minha. Por entre as pernas, as marionetistas botam os seus bonecos e gritam por eles - o tempo! Um parto sem filho - sempre brinquei de viver o que não me acontecia e mantive meu corpo intacto. A arte me amará de volta quando formos velhas? Nunca saberei o que é ser uma galinha. Nunca o que é o próprio pinto entre as mãos. ********** Chá de bebê Há tantos hormô nios no ar que preciso tomá-lo lá fora pra não correr o perigo de meu corpo ser induzido, sincronizado a contragosto. Isso já acontece na eliminação, todas sabemos. Se

ESTAMOS NO AR!

A Revista Contempo estreia nesse abril de 2020 com o compromisso de circular a poesia brasileira contemporânea. Por acreditar nas revistas e periódicos, digitais ou impressos, como espaços democráticos para a promoção da literatura, temos o prazer de fazer o convite para que originais sejam enviados de acordo com as diretrizes descritas aqui . Vamos juntos!